segunda-feira, 15 de maio de 2017

Adeus, Lisboa

Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.

Lisboa, Estação Sul e Sueste, Alberto Sousa (1880-1961), 1910.
Imagem: Museu de Arte Contemporânea

Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.

Lisboa, Ponte dos Vapores, estudo para leque, Veríssimos Amigos, c. 1850.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.

Vapor da carreira de Cacilhas, 1890, Óleo, Alfredo Keil
Imagem: Casario do Ginjal



A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
clivagens de diamantes,

Embarcação de passageiros das carreiras do rio Tejo.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Numa hipnose coletiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?

Barcos junto à torre do Bugio, Alfredo Keil (1850 - 1907).
Imagem: Cabral Moncada Leilões

Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta 
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.

Barco a vapor a atracar em Cacilhas.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus! (1)


(1) António Gedeão, cf. Rómulo de Carvalho, António é o meu nome

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O Grémio Artístico (3.ª exposição, 1893)

Fallemos de Silva Porto. Fallemos do mestre da actual geração de artistas, do regenerador da pintura portugueza, na sua feição moderna.

Conduzindo o rebanho (Arredores de Lisboa), Silva Porto, 1893.
Imagem: MNSR

"Os moinhos da confraria", não tem aquella tranquilidade de cores que distinguem as telas de Silva Porto, mas o assumpto é inquieto de si pela reproducção dos casebres que se espelham nas aguas verduengas do pégo, de modo que á primeira vista não se percebe bem o quadro, e só depois de alguns minutos de observação é que se principia a distinguir os casebres no meio da folhagem e das sebes que são quasi da mesma cor e a perceber aquelles reflectindo se nas aguas que estão em baixo.

Silva Porto triumphou até onde era possivel d'esta dificuldade, que afinal nem todos apreciam. Chamava muito mais a intenção o seu quadro "Conduzindo o rebanho". 

Neste quadro o assumpto está um tanto sacrificado ás dimensões da tela, e outro artista que não conhecesse a perspectiva como Silva Porto a sabe teria naufragado dentro dos estreitos limites em que a scena está disposta. 

Os outros quadros de Silva Porto "Levada de T?rrio", "Caminho da Egreja", "Moinhos do Arquinho", "Caminho de Perre", "Manhã" e "Na eira", são pequenas telas, em que se reconhece o pulso do mestre n'um ou outro pormenor, e que vem ali de parceria com os seus discipulos para os animar e como que para lhes dizer que nem só com os grandes quadros se afirmam os grandes artistas.

Veloso Salgado

Pela grandeza da tela, nenhuma outra, n'esta exposição, se impõe como a de "Jesus", quadro de Salgado. Tela, tela que nunca acaba, e que bem repartidinha poderia dar alguns pares de quadros mais apreciaveis do sr. Salgado.

Outros quadros apresenta o sr. Salgado, que justificam plenamente as esperanças que havia no seu talento, e dentre estes destacaremos o retrato do sr. Wenceslau de Lima; magistralmente pintado, e desenhado com una firmeza pouco vulgar. 

Wenceslau de Lima por Veloso Salgado.
Imagem: FCUP (fundo antigo)

Apenas notaremos qué o olhar do retrato é vago, o que sempre faz perder muito do efeito de um retrato, e não quadra a este o qüe vulgarmente se costuma dizer: parece que está a olhar para a gente. (1)

José Malhoa

Dissemos que o sr. Malhôa "prefere um colorido mais convencional e, portanto, menos verdadeiro" e de facto os quadros d'este pintor destacam-se vesivelmente do resto da exposição, por um tom mixto de vermelho e de azul que dá uma velatura violada quente, um tanto agradavel á vista, mas extremamente falso em relação á natureza.

Ao toque das trindades, José Malhoa, 1893.
Imagem: Nuno Saldanha, José Vital Branco Malhoa

Assim se observa nos seus quadros "O toque das Trindades" e "Os curiosos" a par de alguma incorrecção no desenho, incorrecção que avulta mais neste ultimo quadro, se procurarmos descobrir o nú da figura que se debruça sobre o muro do quintal. Ha ali um pe que não pertence á perna que se esconde debaixo da saia e joelha sobre o assento do muro. 

Os curiosos, José Malhoa, 1892.
Imagem: O Coelho a ver passar o combóio...

No quadro "A missa das seis" domina mais o tom azulado, frio, o que até certo ponto se justifica pela hora, mas o pintor abusou um pouco d'aquella, entuação, assim como da concorrencia á missa, dando-lhe pretexto para pintar uma "queue" como á porta de qualquer banco em dia de corrida. 

A Missa das Seis (Beira Baixa), José Malhoa, 1893.
Imagem: O Occidente N.º 519, 21 de maio de 1893

Muito pouco distincta aquella multidão que corre para o pobre ermiterio, confundindo-se em uma massa que tanto pode ser gente como outra qualquer coisa, o que não deixa de sentir-se mesmo na figura do pobre homem em moletas que fecha a "queue", cuja correcção do desenho não é irreprehensivel.

Os retratos apresentados pelo sr. Malhôa n'esta exposição não nos agradaram tanto como os de outras exposições.

João Vaz

Um outro artista se apresenta n'esta exposição com uma respeitaval porção de quadros, nada menos de treze, numero fatidico para os supresticiosos de enguiços, é o sr. João Vaz, nome bem conhecido no nosso meio atistico e que desde as primeiras exposições do Grupo do Leão concorre a estes certamens com as suas marinhas do Sado.

É justamante por esta razão que as suas marinhas do Sado começam a fatigar o publico, porque, emfim apesar de todas as bellezas do Sado as marinhas do dito é que não podem já com tantas bellezas, e principiam a tornar-se monotonas, ao mesmo tempo que a tinta vae faltando n'um grande desconsolo de fadiga e aborrecimento por só pintar as taes bellezas.

Sr. Vaz, deixe o Sado em paz. Pinte outros motivos nas suas telas e reparta com as pobresinhas mais algumas migalhas de tinta e verá, que o seu talento ainda dá para mais alguma coisa que as querenas no Sado, que o desembarque do peixe no dito, que os patachos á carga no sobredito, e as praias, e as vesperas dos temporaes (era muito mais bonito o temporal desfeito), as baixa-mares, os estaleiros, que sei eu, que ha um bom par de annos anda a esgotar as bellezas do Sado e a paciencia dos admiradores dos seus quadros, quadros alguns, em verdade, de merecimento e que revelam aptidão para obras de mais valia, que estamos certos apresentará na futura exposição. (2)

Adolfo Rodrigues

Veem-se n'esta exposição uns cinco quadros de um artista novo, um discípulo da Academia de Bellas-Artes de Lisboa, o sr. Adolpho Rodrigues, que despertam certo interesse, principalmente dois d'elles, "Hero e Leandro" e "Esperando o peixe".

O primeiro destes quadros é o do concurso da Academia, que premiou o seu auctor com a medalha de prata, recompensa bem merecida, porque este quadro tem qualidades pouco vulgares, e se a sua entoação é um pouco convencional, nem por isso nos desagrada pela grande harmonia que tem a par de uma correcçao de desenho irreprehensivel, sendo o nu muito bem pintado, embora o seu tom cadaverico repugne um tanto á vista.

Mas d'isto não tem culpa o pintor, desde que o ponto do seu concurso lhe destinou reproduzir a historia d'aquelles infelizes amantes, na situação em que o Hellesponto arroja á praia o corpo do apaixonado mancebo de Abydos, afogado ao atravessar aquelle rio para vir encontrar-se com a sua querida Hero, a qual morre ali de dôr junto do cadaver do seu amante.

Hero e Leandro, Adolfo Rodrigues, c. 1892.
Imagem: O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893

É uma scena triste que não pode alegrar nos nem os olhos nem o coraçao, mas que nos alegra o espirito se ostentar-mos bem no modo porque o novel artista a interpretou e reproduziu na sua tela. É uma promessa este quadro, que oxalá não seja como tantas outras que ternos visto e que, infelizmente não tem passado alem, esterilisando-se ás vezes n'um desanimo antes mesmo da lucta.

Parece-nos que não succederá assim com o sr. Rodrigues, porque os quadros que apresenta, especialmente o segundo, que mencionámos "Esperando o peixe", sustenta bem os creditos adquiridos com o seu quadro do concurso. É de um efeito e assumpto inteiramente diferente do primeiro. Aqui affirma se mais o colorista; a correcção no desenho a mesma.

É talvez minucioso de mais em todos os promenores, salvando-se milagrosamente da dureza, pelo bem feito da pintura, de grande limpidez, conhecendo-se que está ali um miniaturista, se attentarmos na paciencia com que estão pintadas as florinhas dos lenços que as duas ovarinitas tem na cabeça, disputando primazias de nitidez ao proprio fabricante que os estampou.

Esperando o peixe, Adolfo Rodrigues, 1893.
Imagem: arquipélagos

No collorido observa-se ainda uma certa ingenuidade no novel pintor, nos valores das suas tintas, tratando mais de cada uma em especial do que da relação de umas com as outras. Mas se nos merecem reparo estas inexperiencias do artista, é porque, nos parece, valer a pena notal-as a quem tanto promette n'estes seus primeiros trabalhos. 

Os outros quadros são menos felizes, apezar de todo o acabamento.

Luciano Freire

Menos acabados são os quadros do sr. Luciano Freire, e, não obstante, resistem perfeitamente á critica pelo grande tom de verdade que possuem. Questão de temperamento, uma certa impaciencia de concluir a sua obra não o deixa assentar n'uns pequenos nadas que ás vezes prejudicam o todo.

É. o que notamos, por exemplo, no seu quadro "A venda do leite", uma tela cheia de verdade, de observação, bem desenhadas as vaccas e o vaqueiro, certo no tom, mas um tanto descurado no plano do fundo do quadro.

A venda do leite, Luciano Freire, c. 1892.
Imagem: O Occidente N.º 520, 1 de junho de 1893

Este artista já muito conhecido do publico pelos seus quadros historicos, de genero e de paizagem, alguns d'elles premiados, e todos vendidos, incluindo o seu quadro "D. Sebastião", adquirido pela câmara municipal de Lisboa, tem afirmado, nas ultimas exposições, notavel tendencia para um genero de pintura que poucos cultivam com distincção, e é apintura de amimaes, essa especialidade tão difficil de que raros pintores triumpham.

A prova d'isto é, alem de outros quadros do mesmo genero que tem exposto, o que apresentou agora, "A venda do leite".

Não se consegue dominar este genero sem uma natural disposição, secundada por grande estudo e trabalho, e o sr. Freire tem sido um luctador para triumphar de todas as dificuldades que se atravessam na carreira de um artista.

Mencionemos ainda um pequeno quadro d'este artista, "Um deita gatos", quadro cheio de observação, que desenha um d'esses typos importados dá Galliza, que hoje infestam Lisboa, concertando e partindo loiça, a troco de quaesquer vintens ou até de uma codea de pão, porque, o principal fim d'esses pobres artifices é matarem a fome, apesar das suas caras redondas, de certa apparencia sadia.


António Baeta 

Em paisagem, marinhas e figura, apresenta o sr. Baeta [António Francisco Baeta] cinco quadros apreciaveis. O sr. Baeta, um artista muito consciencioso, desenha com a elegancia de um decorador, muito cuidadoso no acabamento dos seus quadros, sem dureza e procurando bem a nota certa do tom.

A sua paisagem "Portello da Quinta Real de Queluz" é um motivo bem escolhido de que tem pintado varios quadros, pois já não é a primeira vez que o vimos em exposições. 

A "Praia do Caramujo", é bem pintado, ainda que não sympatisamos demasiadamente com o tom do quadro, em que encontramos uma certa secura.

A "Cabeça de velho" é muito bem pintada e reproduz admiravelmente o modelo que conhecemos. E' o velho Cõrvo que depois de ter feito a sua peregrinação por Lisboa destribuindo folhas de romances e jornaes, faz agora a sua peregrinação pélos ateliers distribuindo-se a si mesmo como um bello modelo de velho que os estudantes e artistas vão aproveitando com vantagem. 

Conceição Silva

É assim que vemos a cabeça do velho"Côrvo" reproduzida em varios quadros da exposição e já o podemos admirar no bello quadro "S. Jeronymo", do concurso do sr. Silva, o anno passado. E por tal signal, que este quadro era muito superior ao que o sr. Silva este anno expõe e que se intitula: "Na praça da Figueira".

Quem o anno passado apresentou o "S. Jeronymo" não era de esperar incorrecta este anno apresentasse uma collareja tão incorrecta nas formas e no desolado tom, incorrecção que não seria para estranhar no gesto e lingua da vendedeira descompondo o freguez que não chegue ao preço das suas laranjas, mas que não se justifica no phisico porque algumas d'estas collarejas não são nada mas de formas. (3)

José de Brito

Principiamos hoje pela apreciação de um quadro de que O Occidente publica a reprodueção em gravura, e que tem por titulo "Où es-tu Lili?" do sr. José de Brito, estudante em Paris.

Où es-tu Lili?, José de Brito, 1890.
Imagem: O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893

Um artista novo, pelo menos para nós, mas que disperta a attenção dos visitantes com este seu quadro de costumes da Bretanha que tambem um quadro de genero, especialidade pouco cultivada pelos nossos artistas, porque, emfim, sempre é um pouco mais difficil, que encher telas com paisagens banaes ou pintar panellas, cebolas e folhas de couve, como se vê n'esta exposição em sufficiente quantidade.

Effeclivamenie na exposição escasseiam os quadros de genero e entre os poucos que apparecem, alguns melhor feira que os deixassem no atelier. Este quadro do sr. Brito recommenda se principalmente por uma entoação extremamente suave, mesmo fria como o ar do paiz em que foi pintado, mas sem velatura.

A harmonia e completa e o desenho correcto, e só notamos que as figuras são um tanto grandes para o quadro e a perspectiva forçada. Apesar d'estes ligeiros defeitos as qualidades são superiores a elles e o quadro distingue-se vantajosamente tendo merecido uma 3.ª medalha, e sendo adquirido por Sua Magestade El-rei D. Carlos.

O sr. José de Brito apresenta ainda um retrato muito bem pintado, mas de que não podemos avaliar a parecenca.

João Carlos Galhardo

Um outro quadro "Carrada de pedra", que teve mensáo honrosa, é do sr. João Carlos Galhardo. Expõe ainda mais dois quadros o sr. Galhardo — "Rio de Lavadeiras" e "De manhã", mas o que fixámos mais detidamente foi o primeiro.

Ha n'este quadro qualidades de côr apreciaveis e que revelam boa interpretação do natural, fazendo esperar do sr. Galhardo, que é ainda um estudante, um pintor animalista quo reproduza nas suas télas essas scenas do campo com verdade, mas um pouco mais poeticas que as prosaicas carradas de pedra.

Antonio José da Costa

O sr. Antonio José da Costa, artista portuense, expõe oito quadros de paisagem que têem qualidades de côr atraiçoadas por incorrecções de desenho, que revelam pouca solidez no estudo d'este artista.

Console-se, porém, o sr. Costa com os muitos companheiros que tem, pois infelizmente não está só na exposição pela errada idéa de alguns que pensam poderem pintar sem desenfiarem sufficientemente. 

Até nos faz lembrar aquelle dito de um abalizado político, que ao visitar o atelier de um esculpiras e depois de ter visto as differentes esculpturas em que o artista trabalhava, perguntou:

— E para fazer estas obras é preciso saber desenho?

Arthur Vieira de Mello

São variados os quadros do sr. Arthur Vieira de Mello que cultiva varias especialidades desde o animalista ao retratista, desde as flôres até aos quadros de genero.

Se intentarmos nos seus carneirinhos do quadro "O Predilecto", temos e mais estranha impressão, por nos parecerem os pobres caprinos cozidos ou pelo menos escaldados, não tendo escapado do desastre nem o proprio predilecto, que o pastorsito afaga em seus braços com um amor que parece ter sido desprezado pela cachopa a que elle arrastava a aza, se é que é dado a essas inclinações naturaes.

O que diremos do quadro — "A mãe doente"? — Uma grande desgraça que vae n'aquella casa, porque, além da mãe estar doente, a filha, que dorme encostada á chaminé, tambem não deve ter muita saude, pois está sendo assada em vida, ao lume da fornalha que lhe serve de almofada. Da composição e perspectiva do quadro não fallemos para não insistirmos em coisas tristes.

Por esta mesma razão não fallaremos do quadro — "Adormecido", — em que ficamos admirados do prodigioso equilibrio que o rapazito faz para nao cahir d'aquelle plano inclinado em que o pintor o pós com o banco em que se senta e a mesa a que se encosta.

E além d'estes quadros, em que o artista parece ter posto os seus melhores cuidados, os outros são umas pequenas telas, mais modestas, mas em que se affirmam mais qualidades como no quadro — "Primeiro ninho".

Thomaz de Mello Junior

Proximo cucou tramosum quadro do sr. Thomaz de Mello Junior, Praia de Cas-eaes que é bem pintado, e d'este artista mais outros quadros de marinhas com. poem a sua exposição. To-dos menos felizes que o primeiro não deixam ainda assim de ter qualidades de boa escola. Do sr. Hygino Mendonça notamos dois quadros —Paisagem e Encosta de Pa-ço d• Anos. O primeiro é um estudo, e como tal se acceita. O segundo é pre-judicado por um excesso de amare% que se impõe des-esperadamente.

Isaías Newton

O Sado já muito sufficientemente explorado pela pintura encontrou agora um outro artista-a devassar-lhe as bellezas.

É o sr. Isaías Newton, um artista da velha guarda que se destaca fortemente da pintura moderna, mas que tem afeitos de perspectiva acrea como poucos. 

Tres quadros apresenta n'esta exposicão todos de motivos do Sado: "Setubal", "Castelo de S. Filippe", e "Rio Sado". 

Marques de Oliveira

Os nossos apontamentos indicam-as agora os quadros do sr. Marques d'Oliveira, professor na Academia Portuense de Bellas-Artes. 

Os quadros d'este artista destacam-se principalmente pelo tom frio com que vê tudo, quer nos apresente e paisagem como no seu quadro — "Pensativa", quer seja um interior como o seu quadro — "O tear". 

Irreprehensivel na correcção do desenho a sua pintura é pouco brilhante, é mesmo triste, não realisando bem a intenção das suas figuras, onde falta sentimento, como a "Pensativa", uma rapariga fiando linho no meio de um campo verde deslavado. Se o auctor não lhe chamasse "Pensativa" ninguem veria mais que uma fiandeira authomatica.

"O tear" participa das mesmas qualidades e dos mesmos defeitos. As mulheres não fazem nada. Pararam de trabalhar, mas quedaram-se na attitude, de forma que a scena não tem movimento, expressão.

Tudo muito correcto, o que já é bastante, mas sem vida, o que é pena. Questão de temperamento, contra o que a critica nada tem a oppôr, desde que a obra é correcta como todos os quadros que conhecemos d'este distincto professor. (5)

Josepha Greno

A sr.ª D. Josepha Garcia Greno é uma artista festejada, muito conhecida pelos seus bellos quadros de flôres, e se as suas paisagens que este anno expõe se podessem medir com as flores que sabe pintar, teria augmentado consideravelmente os seus creditos de pintora.

Infelizmente não acontece assim e os seus quadros de paizagem deixam tanto a desejar como os seus quadros de flores satisfazem perfeitamente.

Flôres, illustre artista, é que deve pintar; estas agradecem-lhe muito mais os seus cuidados, dando-lhe mais triumphos como os que tem tido em outras exposições, onde as suas flores tem sido devidamente apreciadas, ainda que n'esta não foi tão feliz, talvez porque descurasse um pouco os seus "Lilazes", "Malvaiscos e Rozas" preoccupada com as "Margens do Agueda" e as "Margens do Vouga" que afinal a não compensaram condignamente.

De todos os quadros o que mais nos agradou foi o "Rosas e malmequeres". (5).

[Outros expositores 
Adelaide Christina Camacho, discipula de Moura Gyrão: "Bric-á-brac"; Fanny Munró: "Estudo do mar (Estoril)"; Antonio Ezequiel Pereira, Silva Porto: "Logar de fornos de cal", "Inverno";  Arthur Prat: "Uma onda", "Pensando n'elle";  José Queiroz: "Pateo no Alemtejo",  "Panella de Folha" etc.]

Ernesto Condeixa

Occupemo nos agora das obras que o sr. Ernesto Condeixa apresenta n'esta exposição. São cinco os quadros que o sr. Condeixa expõe principiando pelo seu retrato, de um desenho e pintura bastante atormentado.


"O rio das Pontainhas", uma paizagem de Caneças já em tempo explorada pelo fenecido pintor Annunciação, é um quadro de vivo colorido á luz de pleno sol, que á primeira vista nos deslumbra, mas que analysado friamente se reconhecem algumas incorrecções na perspectiva, como a falta de relação prespectiva que ha entre as figuras do primeiro plano e os do ultimo, além do ponto de vista da paizagem ser bastante desfeitoravel para o bom effeito do quadro.

Ainda assim este quadro é bem melhor que os seus dois quadros "Jogando o diabrete" e "Uma tarefa", que á primeira vista duvidámos serem do sr. Condeixa, tal foi a deploravel impressão que nos fizeram.

As duas crianças que jogam o diabrete são de um desenho que deixa muito a desejar. Sem Intenção, sem vida, sem expressão, mal se ajeitando as figuras com os accessorios, todos em guerra com a prespectiva, estes quadros foram necessariamente pintados em hora infeliz, se attendermos a que o sr. Condeixa tem apresentado obras de merecimento real.

O melhor quadro que o sr. Condeixa expõe, no nosso entender, é "As Fonlainhas ao cahir da tarde". Achamos o tom muito justo realisando bem o effeito de luz, o que nos faz preferir os seus quadros de paisagem aos seus quadros de genero.

João Dantas

Apparece n'esta exposição um artista que melhor podemos considerar um amador, pela raridade com que vem a publico com as suas obras. É o sr. João Dantas, pintor de marinhas muito consciencioso e que nos poucos quadros que lhe conhecemos, em todos afirma estudo sério no rigorismo com que desenha as suas composições de navios.

O quadro que expõe é dos maiores que se vèem na exposição e representa uma reconstrucção historica de alto valor para os fastos da mari-nha portegueza como foi a "Batalha do Cabo Matapan".

A batalha do Cabo Matapan, João Dantas, c. 1892.
Imagem: Museu de Marinha

Mesmo lá fóra onde ha tantos artistas pintores de superior merecimento, são raros os quadros d'este genero que apparecem nas exposições, e por isso mais razões temos para applaudir o que apparece agora no nosso pequeno meio artístico.

Este quadro foi premiado com uma 3.ª medalha e adquirido por Sua Magestante El-Rei D. Carlos. Assim devia ser para estimulo de novos emprehendimentos, tanto mais em Portugal. cuja historia tanto abunda em factos gloriosos da sua marinha. (6)

António Ramalho

Ainda mais algumas palavras para concluirmos esta nossa notticia sobre a exposição do Gremio Artistico, e vamos a aviar antes que a 4.ª exposição se abra com a volta das andorinhas, que não vem longe, e a primavera florida com as suas cores brilhantes como "As flôres" quadro do sr. Antonio Ramalho que contemplamos agora.

No seu quadro "Serão", de um colorido brilhante e de bem achado etfeito de luz, poderemos notar cambem a ausencia de belleza naqueles rostos femeninos, talvez demasiado realistas pela trivialidade, o que não impede de apreciarmos o quadro como um dos melhores, senão o melhor de genero que se vê na exposição.

O serão, António Ramalho, 1892.
Imagem: Alexandra Reis Gomes Markl, António Ramalho, Pintores Portugueses, Lisboa, Edições Inapa, 2004

É tambem superiormente pintado e desenhado o seu quadro "Estudante". Uma bella cabeça que retrata um escriptor conhecido e que está fielmente reproduzida pelo pintor, com a vida e sentimento que faz o desespero da mechanica photographia.

Expõe ainda o sr. Ramalho mais alguns retratos de senhoras, de homens e de crianças, todos de boa factura, mas de que não podemos avaliar a semilhança por não conhecermos os originaes.

Ainda mais um quadro "Praia da Boa Nova", que nos pareceu fraco, recordando-nos de outros quadros d'este genero do sr. Ramalho muito melhores.

Praia da Boa Nova, António Ramalho, 1892.
Imagem: do Porto e não só...

Marques Guimarães

E, em retratos não deixaremos de notar um pintado pelo sr. Marques Guimarães, professor da Academia Portuense de Belas Artes e que o expõe com o titulo "Retrato de minha mãe". É de uma grande tranquilidade de tintas e suavidade de tons este belo retrato, que nos faz lembrar os. belos retratos de Coelho o celebre pintor portuguez do seculo XVI.

O sr. Marques Guimarães foi muito mais feliz neste retrato do que nos seus quadros "Campo 24 de Agosto" e "Feras portuguesas". A pobreza do assumpto e a frieza da céu, fazem lamenter que o ilustre professor empregasse tão mal o seu tempo em coisas tão vulgares, que não conseguiu salvar da banalidade.

Almeida e Silva

Mas se o sr. Marques Guimarães se ocupou com estes modestos assuntos, tendo folgo para mais arrojadas obras. não faltou arrojo ao sr. Almeida e Silva [v. Catálogo da Coleção de José de Almeida e Silva, Museu de Grão Vasco], ex-alumno da Academia Portuense de Belas Artes, para se abalançar a pintar uma "Mater Dolorosa", que effectivamente faz dó vel-a tão rebaixada á triste condição de uma cosinheira a que se lhe queimou o refogado.

Não valeu á Virgem toda a poesia da lenda que a envolve, para ser assim tratada tão prosaicamente. Que a Virgem como mãe de misericordia, lhe perdoo-o amimando, pela ingenuidade da intenção com que foi commettido, porque, em fim, é de supor que alli não houvesse maldade.

E se fossemos a desfiar os quadros que o sr. Almeida e Silva mandou a esta exposição, teriamos de quebrar o proposito que fizemos no principio d'esta noticia, de que deixariamos em silencio as obras que seus auctores fora melhor não terem exposto a publico.

Pouco mais temos a dizer da exposição de pintura.

Emília Santos Braga

Não terminaremos, porém. sem notarmos os quadros de uma senhora, discipula do sr. Malhoa, que se distingue muito vantajosamente entre o grande numero de amadores e estudantes de pintura que concorreram a esta exposição. E' a ex.ª sr.ª D. Emilia Santos Braga que expõe quatro quadros intuindo um "Estudo".

"Affinando" é um dos quadros que mais sc distingue; pintado com largueza e certa correcção, é sobrio de cores, sem fraqueza nem monotonia. Menos empastado de tinta seria talvez mais limpido no tom que é um tudo nada sujo.

Este abuso de tinta assentua-se mais ainda no seu quadro "Margarida", em que pertende á força de tinta conseguir uns reflexos de setim branco ou coisa parecida na vestido da sua "Margarida", e o que notamos no setim do vestido notamos tambem no setim da pele, que não alcança a finura d'aquelle typo ideal que a auctora quis criar na sua tela.

O seu quadro "Boas Novas" resgata-se um pouco do defeito qne acabamos de apontar, porque é muito mais fresco nas carnações, muito menos maceradas, sendo o tom geral do quadro de grande harmonia. (7)

oooOooo

Abrindo o catalogo da exposição encontramos, em primeiro logar os nomes de Suas Magestades El-rei D. Carlos e D. Maria Amelia, como auctores de tres obras que expõem com o mais louvavel proposito de honrarem a exposição e animarem a arte nacional.

É uma fineza para agradecer e que mostra o grande interesse que os monarchas tornam pela arte. Um esboço a pastel, de um "Combate naval" e uma "Paizagem do Ribatejo", tambem a pastel, são os quadros de El-rei, despertenciosamente feitos, nalgumas horas d'ocio, bem aproveitadas cultivando a arte.

Uma pequena tela, "Pescador" [v. O Occidente N.º 516, 21 de abril de 1893], é o quadro com que a Rainha a Senhora D. Maria Amelia honra a exposição. Deste quadro e da "Paizagem do Ribatejo" [v. O Occidente N.º 516, 21 de abril de 1893] esperamos publicar as reproduções em gravura, dum dos próximos n.os d'O Occidente, pondo assim ante os olhos dos nossos leitores estas duas obras d'arte a que basta o prestigio dos nomes que as firmam. (8)


(1) O Occidente N.º 517, 1 de maio de 1893
(2) O Occidente N.º 519, 21 de maio de 1893
(3) O Occidente N.º 520, 1 de junho de 1893
(4) O Occidente N.º 524, 11 de julho de 1893
(5) O Occidente N.º 526, 1 de agosto de 1893
(6) O Occidente N.º 527, 11 de agosto de 1893
(7) O Occidente N.º 530, 11 de setembro de 1893
(8) O Occidente N.º 515, 11 de abril de 1893

Leitura relacionada:
O Coelho a ver passar o combóio...

Leitura adicional:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
Zacharias d'Aça, Lisboa moderna, Lisboa, Viuva Tavares Cardoso, 1907
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
M. A. O. Costa Mendes, O pintor Marques de Oliveira (1853-1927), Lisboa, ACD, 2015

Temas: Pintura, Grupo do Leão

Google search: MNAC, Matriz.net

terça-feira, 9 de maio de 2017

O Grémio Artístico (2.ª exposição, 1892)

Comecando pela exposição. de 1881, realisada n'uma sala da rua do Alecrim, em que figuraram 9 artistas e 73 obras, o nosso salão anual tem ido augmentando de maneira que á actual exposição concorrem ao artistas com cerca de 300 obras, e ainda não estão n'ella representados um grande numero dos artistas portuguezes, entre os quaes alguns dos mais conhecidos e talentosos, como os srs. Simões Almeida, Alberto Nunes, Ferreira Chaves, Moreira Rato. Columbano, D. Maria Augusta [Bordallo Pinheiro], Villaça, Sousa Pinto, Victorino Ribeiro, A. Keil, Teixeira Lopes, Thomaz Costa, José de Brito, Reis, etc. (1)

O último interrogatório do Marquês de Pombal (janeiro de 1780), José Malhoa,1891.
Imagem: Matriz.net

José Malhoa

O grande quadro do sr. Malhôa tem além d'outros esse grande merecimento: o de convencer toda a gente de que já se sabe pintar em Portugal.

Muitas pessoas que encolhiam os hombros deante de um quadro de Silva Porto, mesmo que elle fosse o "Logar da Pontinha" ou o "Moinho do Gregorio", porque — ora adeus! quadros de meio metro quadrado — diante d'aquella tela de 5m de comprido por 3,30 de alto, curvaram a cerviz, convenceram-se, não tiveram mais remedio senão declarar que realmente nós sambem temos artistas.

Uma grande parte dos quadros de figura da exposição são pintados pelo sr. Malhoa, um artista muito trabalhador, que se desforrou de só ter o anno passado exposto quatro trabalhos apresentando n'esta vez nada menos de quatorze, alguns muito grandes e quasi todos de dimensões mais do que medianas.

Sao elles, além do "Marquez de Pombal", dois retratos, dois estudos de figura, cinco paisagens com figura, dois estudos de animaes e duas paisagens.

Um dos retratos é o de El-Rei D. Carlos, feito para o tribunal de contas, muito parecido e em que ha as qualidades de execução do auctor do "Marquez de Pombal"; em especial a parte superior da cabeça é superiormente tratada.

O outro, que representa o príncipe da Beira, está por concluir, o que me surprehendeu bastante, pois que o jury (o mesmo do anno passado com differença de um dos seus membros) regeitou na primeira exposição trabalhos por estarem nessas condições.

Príncipe real D. Luis Filipe, José Malhoa, 1892.
Imagem: Tesouros de Portugal

Dos outros trabalhos do artista são mais notareis o "Gritando ao rebanho", que lembra muito a "Caça aos taralhões" exposta o anno passado pelo sr. Pinto, e que, á parte o primeiro plano, é excellente;

o "Almoço para o pae", feito na sua ultima maneira, de toque esmiuçado e aspecto um tanto vaporoso, em que o pequeno tem um pé mal desenhado, mas excellente de perspectiva aerea e bonito na sua tonalidade molle e delicada;

Almoço para o pae, José Malhoa, 1891.
Imagem: O Coelho a ver passar o combóio...

a "Rega dos alfobres", tambem de aspecto muito agradaval e que, assim como o "Crepusculo" [v. O «Crepúsculo» da Dona Amélia (c.1892)], tira o seu afeito do contraste da luz e da sombra, muito predilecto do artista;

uma cabeça de burrico lanzudo, "Pensando no caso" philosophicamente; e finalmente "As aboboras", que já figurou na exposição do Grupo de Leão em 1889 e curioso como motivo de comparação entre as diversas maneiras do artista.

Porque nenhum dos nossos artistas tem variado tanto na maneira de pintar como o sr. Malhoa. Ao contrario de outros artistas que chegam a ser monotonos e massadores para não sahirem de uma maneira sua, especial, diferente da de todos os mais, especie de etiqueta com que marcam os seus trabalhos, o sr. Malhoa parece antes ter a peito mostrar que é capaz de pintar como qualquer outro, procurar constantemente novas maneiras e novos processos, mostrando um espirito mais curioso do que prolundo, facilmente impressionavel mas pouco constante.

Assim, as figuras do "Marquez de Pombal", do Almoço para o pae", da "Ultima golta", do "Gritando ao rebanho", da "Rega dos alfobres" e do "Retrato de madame Caupers"; assim como as maneiras de interpretar a paisagem nas "Aboboras", nos "Castanheiros em dezembro" e n'alguns d'aquelles teem entre si diferenças bastante salientes para que esses quadros pudessem ser attribuidos a diferentes artistas, comquanto haja entre elles um certo parentesco, que, talvez "malgré lui", não pode deixar de lhe imprimir o talento do artista, e que, apesar da sua volubilidade, faz distinguir os seus quadros entre quaesquer outros.

Primeiras tentativas [cf. O Coelho a ver passar o combóio...], José Malhoa, 1891.
Imagem: artnet

Ao que acabo de dizer fazem excepção as "Primeiras tentativas" e o "Gritando ao rebanho", que varias pessoas attribuiram ao sr. Pinto, tanto elles se parecem com a "Caça aos taralhões" e com os dois quadros agora expostos por este artista, "A caça aos grilos" e Adormecido". 

Todos elles teem a mesma paisagem de um verde escuro, a mesma luz mais ou menos vaga e crepuscular, as mesmas figuras ao centro, no primeiro plano, ora um ora dois pequenos. Por isso o publico, que o anno passado soltou um brado unanime de admiração perante a "Caça aos taralhões", este anno ficou bastante frio deante dos quadros enviados pelo sr. Pinto, — e tambem dos dois do sr. Malhoa. 

É que são variações de mais ao mesmo thema. Ainda se fossem do mesmo artista, mas de dois! O caso fez-lhe especie... 

Manuel Henrique Pinto

No entranto em ambos os novos quadros do sr. Pinto ha as mesmas qualidades de composição e factura da famosa "Caça aos taralhões. 

Na "Caça aos grilos" os dois petizes são bem estudados; especialmente a attitude do que está de costas, com as calças rachadas ao fundo das ditas, é muito natural e bem apanhada, todo attento para a toca, d'onde o outro com uma palha está a fazer sahir o bicho. 

A caça aos grilos, Manuel Henrisue Pinto, 1891.
Imagem: O Coelho a ver passar o combóio...

O primeiro plano é excellentemente tratado; na parte superior, porém, ha falta de ar e o garoto das calças rachadas tem a mão direita mal desenhada.

No outro ["Adormecido"] o rapaz, que dorme n'uma posição bem pouco natural (de resto no meu tempo os garotos brincavam de dia e dormiam de noite), está bem pintado; o rosto, em especial, é notavelmente modelado. E a paisagem é sambem superior á do primeiro; a perspectiva aerea é mais bem observada e o lado esquerdo é especialmente muito bonito de côr, de um verde fresco e justo de tom.

Emília Santos Braga

Um quadro que lambem enganou algumas pessoas (a mim, por exemplo), que á primeira vista o attribuiram ao sr. Malhoa, tanto elle fez lembrar alguns trabalhos d'este senhor, foi o "Estudo" da sr.. D. Emilia Santos Braga, representando uma senhora decotada e que se via logo á entrada da primeira sala.

A parecença era, de resto, natural pois que aqueda senhora, segundo diz o catalogo, é discípula do sr. Malhoa, não sendo pois de admirar que alta siga a maneira do mestre. (2)

Silva Porto

Se o grande quadro do sr. Malhôa é de todas as obras expostas a que mais chama a attenção, o quadro grande do sr. Silva Porto é sem duvida o mais bello e o mais perfeito trabalho da exposição.

Como de costume, o grande artista expõe juntamente com outros quadros pequenos um de maiores dimensões, que representa a "Barca de passagem de Serreleis", e é uma admiravel obra prima.

Barca de passagem em Serreleis [Viana do Castelo], Silva Porto, 1892.
Imagem: Matriz.net

A "Barca de passagem" é, a meu ver, o primeiro da collecção dos seus quadros grandes, é uma obra que se pode pôr a par das de qualquer grande paisagista estrangeiro, e que o governo devia adquirir, a despeito de todas as crises; para o Museu Nacional, onde occuparia o togar d'honra na sala da pintura portugueza contemporanea.

Além d'essa expõe o artista ainda outras obras de primeira ordem. O "Rio Ave", por exemplo, tem todas as qualidades de perfeição e encanto da "Barca de passagem" é uma joia da mais fina agua.

Outra joia de não menos valor é a "Cabeça de camponeza", deliciosa de verdade e expressão ; como é surprehendente e' magistral a cabeça e sobretudo o olhar do velho pescador, do pequenino quadro "Á beira mar".

Encantador sambem o "Logar do Prado", de uma tonalidade quente e harmoniosa;

soberbo de execução e flagrante de verdade o intitulado "Na praia"; 

magnificos os "Cavallos" bebendo e muito bonitos a "Primavera", um fresco trecho dos arredores de Lisboa e a "Rapariga a dobar", um pittoresco costume minhoto.

Marques de Oliveira

Depois de tratar de Silva Porto occorre-me naturalmente fallar do sr. Marques d'Oliveira, o mestre do norte. Não porque os trabalhos de um se pareçam com os do outro, que não parecem. Emquanto o sr Silva Porto pinta de preferencia os aspectos alegres, luminosos e quentes, os quadros do sr. Marques d'Oliveira distinguem-se geralmente por uma tonalidade pallida e morna, que dá uma impressão de branda e delicada melancolia.

Mas une-os uma qualidade commum, que se encontra igualmente nos seus trabalhos e em grau superior aos dos outros artistas: a intensidade de impressão que d'elles emana, o sentimento profundo da poesia intima das coisas, dos aspectos, das harmonias da natureza.

É que um e outro a vêem não só com os olhos mas tambem com o coração: pode applicar se lhes com propriedade a phrase de Virgílio — "arcades ambo" [ambos são da Arcádia].

Todos de aspecto pouco vistoso e, a não ser no primeiro, até um pouco pardacento, o sr. Marques d'Oliveira espõe seis quadros, dos quaes, pela perfeita observação dos valores e entoação justa, são de primeira ordem "O moinho", "Habitações de pescadores", o "Caminho enxarcado" e "Esperando os barcos". n'este ha uma rapariga sentada sentada na praia, com os braços cruzados sobre o joelho, que é um pedaço verdadeiramente de mestre.

À espera dos barcos, Marques de Oliveira, 1892.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

E dos outros, em especial o que representa as "Habitaçtes de pescadores", ao fundo de um pequeno trato de terreno, de uma tonalidade suave e doce, em que os telhados vermelhos põem uma nota delicadamente alegre, é um dos mais bonitos da exposição. (3)

Veloso Salgado

O sr. Salgado. certamente um dos nossos mais esperançosos artistas, expõe urna .grande tela decorativa, que intitulou Amor e Psiche.

Amor e Psyche, Veloso Salgado, 1891.
Imagem: MNAC

Eu não comprehendo muito bem como a scena representada pelo artista se pode entender com a celebre legenda que Apuleu [Apuleio] intercallou no seu Burro d'oiro.

Expõe mais o sr. Salgado uma magnifica paisagem, em que ha uma bellissima athmosphera crespuscular; uma bonita cabeça em estylo gothico ; uma phantasia intitulado "Hamlet", muito notavel como execução, e que representa uma especie de mulato com expressão risonha contemplando uma medalha, e destacando n'um fundo de gemma d'ovo; e outros trabalhos em que ainda se revela o talento do artista mas menos interessantes.

Luciano Freire

Outro artista de que a pintura portugueza tem muito a esperar, o sr. Luciano Freire, apresenta dois quadros notabilissimos e que mostram um espirito perfeitamente orientado. Um d'elles é lambem um quadro decorativo e intitula-se "Ilha dos Amores". 

O outro quadro do sr. Freire representa uma raparia dando "A Ração" a uma vitella que por traz d'ella está de orelhas estendidas e olhos fitos, mirando attentamente, assim como a rapariga, alguem ou alguma coisa que lhe despertou vivamente a attenção.

António Ramalho

Entre os poucos retratos que este anno figuram na exposiçao tem o primeiro togar o "Retrato de creança" do sr. Antonio Ramalho, um dos mais valentes e conscienciosos da nossa escola moderna, que está adquirindo entre nós o titulo de mestre na especialidade dos retratos de creanças.

O Retrato de creança que elle expõe este anno (e tenho pena que não tenha exposto mais dois que eu vi no seu atelier) representa uma pequenitta de olhos pretos, faces rosadas, com duas covinhas na barba, fazendo com a bocca um engraçado momo, e de cabello castanho e anellado cahindo sobre uma romeira de pellucia vermelha. 

Expõe mais o distincto artista, dois quadros representando aspectos do claustro de Cellas, tão interessante como especimen da architectura romanica em Portugal. 

O maior d'elles, "No claustro de Cellas", representa o claustro visto de dentro de uma das galerias lateraes. No banco que segue ao longo da arcaria, revestido de magnificos azulejos, está sentada uma senhora desenhando, e por entre as columnas, de curiosos capiteis figurados, avista-se o pateo arborisado e o lado de lá do edificio.

(Senhora no claustro)
No claustro de Cellas, António Ramalho, 1891.
Imagem: Veritas

O outro, "Um canto do claustro" [mosteiro de Celas], em que as plantas sobem pelas paredes numa desordem pittoresca e luxuriante. é tambem excellente e muito bonito.

Um canto do Claustro, António Ramalho, 1891.
Imagem: YouTube

Expõe ainda o sr. Ramalho um quadro magnifico, mas prejudicado bastante no effeito pelo formato, que o amesquinha. É uma representação da celebre "Bocca do inferno", em Cascaes, onde se vê um canto do mar e um pedaço das rochas, fortemente alumiadas, e de uma grande justeza de tons.

Rodrigues Vieira

Do claustro de Cellas mandou-nos tambem dois quadros o sr. Vieira, um dos antigos companheiros do Grupo do Leão, de alegre memoria, e hoje professor da Universidade, que o tem infelizmente afastado quasi de todo do mundo da arte, em que lhe pertencia um dos primeiros logares pelo seu real temperamento de artista.

A prova d'esse temperamento está, por exemplo, no seu bello quadro "A orchidea", que representa uma freira, de habito branco cahindo em linhas de uma grande belleza, que desce a escadaria do claustro com um vaso de flores n'um braço e contemplando uma flor amorosamente.

É um trabalho que revela um verdadeiro artista na delicadeza da composição, na elegancia da figura e na finura da intenção. É pena somente que o artista não tenha tratado mais cuidadosamente o rosto e as mãos da sua figura, cuja execução desleixada impede este bello quadro de ser um trabalho de primeira ordem.

O "Claustro abandonado" representa tambem o claustro de Cellas, mas visto do pateo, e mostrando a parte exterior da galeria de que o sr. Ramalho pintou o interior.

Clausto abandonado (Claustro do mosteiro de Celas), Rodrigues Vieira, 1891.
Imagem: Matriz.net

É um trabalho excellente. de tonalidade mais escura do que n'aquelle mas bem executado, como são excellentes os "Fructos" expostos pelo mesmo artista, mas que ainda assim me fazem saudades dos fructos e flores que o sr. Vieira expunha noutros tempos [v. tema: Grupo do Leão].

Josefa Greno

A sr.a D. Josefa Greno, sem apresentar nenhum trabalho comparavel ao "Melão francez" do anno passado, sustenta no entanto os seus creditos de eximia pintora de flores.

Dos seus quadros são especialmente notaveis os "Malvaiscos e fructos", as "Rosas e despedidas de verão" e os "Fructos", tratados com a maestria que lhe é habitual; o "Cesto de rosas", de tonalidade delicada e composição muito feliz, e as "Estrellas do Egypto", tambem muito bonito de aspecto; e ainda as "Rosas" e as "Rosas e papoulas", de factura vigorosa e quentes de cor.

Das paisagens expostas pela mesma senhora, bastante inferiores ás suas flores, é ainda assim muito agradavel de aspecto a Devesa do Cumulo, numa gamma delicada e branda. (4)

Ernesto Condeixa

Do sr. Condeixa ha tombem na primeira sala uma magnifica "Cabeça de estudo" e duas paisagens excellentes, a "Ribeira de Alcantâra em Campolide", de uma bella atmosphera do poente, e a "Estrada de Campolide", um bom aspecto de inverno; com as suas arvores de um tom amarellado, mias] despidas de folhagem, com muito ar, magnifica de execução.

Ribeira de Alcatifara em Campolide (Paisagem com rio).
Ernesto Condeixa, c. 1891.
Imagem: Palácio do Correio Velho

João Vaz

O sr. Vaz, além de um grande numero de quadros medianos e pequenos, apresenta este anno um quadro de grandes dimensões representando o "Desembarque de peixe em Setubal".

Desembarque de peixe em Setúbal, João Vaz, 1891.
Imagem: Largo da memória

Apesar de haver n'elle as qualidades habituaes do nosso pintor do Sado, aguas de uma bella transparencia, atmosphera luminosa, figuras bem desenhadas. esse quadro não agrada. Tem coisas de mais, muitas pessoas, muitos barcos, dispostos a troxe-moxe, sem cuidado pela composição.

O artista podia dar ainda alguma serenidade áquella confusão, áquelle amontoamento, se lhe tem posto por cima um céu limpido e calmo; mas não, a atmosphera está lambem cheia de nuvensinhas: barulho em cima e barulho em baixo, barulho por toda a parte.

Póvoa do Varzim (Praia da Póvoa do Varzim), João Vaz,  1891.
Imagem: Matriz.net

São-lhe muito superiores alguns dos seus quadros mais modestos em grandeza: a "Furna do inferno", por exemplo, uma bella marinha, muito justa de tons; os "Barcos do Sado", muito bonito e excellente de execução; a "Povoa de Varzim", tambem magnifico de execução, comquanto o mar, em que alvejam vellas brancas ao longe, se pareça muito com as aguas do seu predilecto Sado; e ainda "A praia" (Setúbal), "Canoa na praia" (não catalogado) e S. Domingos (Vianna do Castello), todos muito bem tratados e estes dois muito bonitos. (5)

2.ª exposição do Grémio Artístico, 1892.
Imagem: O Occidente N.º 480, 21 de abril de 1892

De entre os restantes expositores na pintura [...] (6)


(1) O Occidente N.º 480, 21 de abril de 1892
(2) O Occidente N.º 482, 11 de maio de 1892
(3) O Occidente N.º 480, 21 de abril de 1892
(4) O Occidente N.º 481, 1 de maio de 1892
(5) O Occidente N.º 482, 11 de maio de 1892
(6) O Occidente N.º 483, 21 de maio de 1892

Leitura relacionada:
O Coelho a ver passar o combóio...

Leitura adicional:
Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
Zacharias d'Aça, Lisboa moderna, Lisboa, Viuva Tavares Cardoso, 1907
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
M. A. O. Costa Mendes, O pintor Marques de Oliveira (1853-1927), Lisboa, ACD, 2015

Temas: Pintura, Grupo do Leão

Google search: MNAC, Matriz.net

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Grémio Artístico (1.ª exposição, 1891)

Apparecem-nos artistas novos, ainda hontem, por assim dizer, ignorados e que já hoje figuram honrosamente a par dos mestres. 

Manuel Henrique Pinto

De todos elles fararemos seguindo a ordem em que a nosso modo de vêr os collocam os seus trabalhos, assim começaremos pelo sr. Henrique Pinto, que até hoje não tinha conseguido vencer a indifferença dos entendidos em varias exposições do Grupo do Leão, e que agora nos manifesta de uma maneira brilhante e distincta na sua "Caça dos Taralhões" uma formosissima têla que nos recorda vagamente Bastien Lepage, o grande mestre da escola franceza, e  em cuja obra naturalmente o sr. Pinto se foi inspirar. (1)

A caça aos taralhões, Manuel Henrique Pinto, 1891.
Imagem: O Occidente N.º 468 (suplemento), 21 de dezembro de 1891

Silva Porto

Dissolvido o Grupo do Leão, formou-se annos depois o Grémio artístico, organisado mais regularmente, e Silva Porto foi um dos seus principaes fundadores e o primeiro presidente.

Inaugurou o Grémio as suas exposições em 1891, sendo na primeira a obra do mestre representada por grande numero de télas [15], algumas superiores, como À porta da venda, o Moinho do Gregorio e Guardando o gado — estas duas do Minho. (2)

Que soberba e justa comprehensão da sua arte, que poderoso vigor dá a palleta d'onde brotou essa tela de um mimo e frescura inexcediveis e que representa o Moinho do Gregório.

O moinho do Gregório, Silva Porto, 1891.
(Casa dos Patudos, Alpiarça)
Imagem: As representações da cidade do Rio de Janeiro na obra de Eliseu D’Angelo Visconti

A par d'esta impressiona nos agradavelmente o n° 144 (Cancella de Serreleis).

Cancela de Serreleis, Silva Porto,1891.
(Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Lisboa)
Imagem: Matriz.net

"À Porta da Venda" é uma tela de  dimensões avantajadas figurando um d'esses carros de recoveiros de Torres, que todos os que tem percorrido as estradas dos arredores de Lisboa conhecem bem. (3)

À porta da venda, Silva Porto, 1891.
Imagem: O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891

Ernesto Condeixa

O sr. Condeixa, artista já bem conhecido do nosso publico, expõe apenas um quadro, representando o infandte D. Henrique no seu gabinete de trabalho em Sagres.

Inauguração da 1.ª exposição do Grémio Artístico, 1891.
Imagem: O Occidente N.º 441, 21 de março de 1891

António Ramalho

Achamo-nos agora em presença do sr. Ramalho que expões entre outros um retrato o n.° 117 que chama attenção do publico pela beleza do colorido e primoroso do toque.

D. Helena Dulac Pinto de Miranda, António Ramalho, 1888.
Imagem: MNAC

O n.° 118 — Retrato do sr. Abel Acácio —  como entoação geral agrada-nos mais, apezar do abuzo deveras irritante de detalhes nos accessorios que n'esta tela atingem taes proporções que não sabemos ao certo se contemplamos o retrato do primoroso escriptor se um interino chino-europeo.

Retrato de Abel Acácio Botelho, António Ramalho, 1889.
Imagem: MNAC

Do sr. Ramalho notaremos ainda a "Porta de Moura em Évora" que tem bastante luz, mas que é demasiado cru e algum tanto feito do "chic".

Porta de Moura em Évora, António Ramalho, 1890-1891.
Imagem: Fluxo

Veloso Salgado

O sr. Salgado é talvez o artista que expõe o maior numero de quadros e quer nos parecer que teria muito a lucrar com a auzencia de alguns, taes como por exemplo o n.° 131 "Flores do Campo" e os n.os 139 e 140 que bastante prejudicam outros trabalhos em que mostra quanto tem aproveitado e de quanto é capaz.

Inauguração da 1.ª exposição do Grémio Artístico, 1891.
Imagem: O Occidente N.º 441, 21 de março de 1891

Estas tendências percebem-se claramente sobretudo no quadro "Velhice", tão bem feito, que apezar da insignificancia do assumpto consegue captivar-nos pelo sentimento e correcção da figura principal [...]

A "Orphã" é outra tela em que Salgado manifesta as suas qualidades, mas que nos parece uma infeliz imitação de J. Breton.

Orphã (ou No cemitéro), Veloso Salgado, 1890.
Imagem: MNAC

Até hoje ainda não conhecemos um unico trabalho de Salgado que não se resinta da sua pobreza de imaginação. Em todos elles vem dominar a inspiração alheia a que o artista parece recorrer sob pena de cahir na banalidade. É pena, repetimos, tanto mais que o novo caminho encetado por Salgado é dos melhores. Se insistimos neste ponto, que de certo não será muito agradavel ao novel artista, é porque o julgamos em tudo capaz de produzir melhor e pelo desejo que temos de o ver honrar a sua arte sem o minimo senão. 

Da sua primitiva maneira notaremos o "Retrato do esculptor Teixeira Lopes" menos correcto, mas com que o publico mais parece svmpathisar. Isto explica-se naturalmente pelas dimensões da tela e pelo espalhafato dos accessorios. (4)

Retrato do escultor Teixeira Lopes, Veloso Salgado, 1889.
Imagem: Wikipédiaé

Marques de Oliveira

Falemos agora do sr. Marques de Oliveira, professor da Academia Portuense de Bellas Artes, cujos trabalhos até agora pouco ou nada conheciamos, e que n'esta exposição nos deixam na verdade perplexos. 

[v. M. A. O. Costa Mendes, O pintor Marques de Oliveira (1853-1927), Lisboa, ACD, 2015]

Apresenta este artista doze télas, em que notámos diferentes maneiras e algumas das quaes francamente não chegamos a perceber. Analysemol-as, porém, por partes. O quadro n.° 72 intitulado "A lição", é de todos o que mais nos prende a attenção. De um desenho magistral, de uma simplicidade de composição admiravel de uma observação finissima e de um belo modelado "A lição" agrada a todos os visitantes, e nós mesmo a contemplamos com agrado e sympathisamos absolutamente com a technica do sr. Marques d'Oliveira neste quadro.

De facto nao comprehendemos o motivo que levou o sr. Oliveira a sujar, é o termo, de branco a sua téla depois de concluída. Será novo, será revolucionario, será o que quizerem todos os insubmissos. mas para nós será sempre um erro inexplicavei essa pseudo-velatura que, na nossa opinião, so concorreu para offuscar as verdadeiras belezas que notámos na "A lição", mais que suficientes para d'ella faser um bom quadro. 

Outro tanto não podemos dizer do n.° 71 "Graças a Deus", que alem de ser uma composição pouco feliz, é mal entoado, e todo elle leito com muito "parti pris", notamos n'esta téla as tendencias nephelibatas da epocha, tendencias que afinal o sr. Marques d'Oliveira accentua claramente nas paizagens que tem os n.os 75, 77 e 78. Puro e genumo nephelibata nós, barbaros, não comprehendemos estas telas e nem por isso nos lastimamos.

Passemol-as pois em claro e detenhamos nos um instante perante os n.os 79 "Canto de Vizella" e 82 "Praia de pescadores" de uma semelhança extraordinaria com a maneira de Silva Porto.

[v. Ponto de vista, Silva Porto ou Marques de Oliveira]

O que não nos agrada e que afoitamente classificaremos de mão é a atmosphera do n.° 82: o artista quiz dar-nos a impressão de um céu carregado e apenas nos dá a realidade de um pedaço de téla suja de cinzento.

Notaremos ainda o n.° 73 "Lavando redes" que aparte a entoação geral demasiado violeta, e as figuras que nos parecem bonecos recortados e depois collados sobre a tela, tem a salval-o e a encobrir os defeitos, citados, a maneira feliz por que está indicado o mar. 

José Malhoa

O sr. Malhôa apresenta-nos desta vez poucos trabalhos o que é deveras para sentir, notando porem que as tres télas que expõe affirmam os progressos que estamos habituados a notar nos quadros deste artista e que de exposição em exposição se vão cada vez mais accentuando. O n.° 70 "Noé e Preciosa" é um dos melhores trabalhos que conhecemos do sr. Malhôa. 

Noé e Preciosa, José Malhoa, 1891.
Imagem: Os cachopos da Fonte do Cordeiro

São sympathicas aquellas cabeças dos dois beirõesitos e foram reproduzidas com sinceridade e correcção. O tom das carnes parece-nos talvez algum tanto sujo, mas no entanto, nós preferimol-o aos tons nacarados que Malhôa costuma usar nos seus retratos e de que é um exemplo frisante o n.° 68 [Madame Caupers].

Esta tela além disto, vem confirmar o que já ha muito tempo pensavamos dos retractos d'este artista. Malhôa preoccupar-se demasiado com os retratos de Chaphin, procurando imitar o celebre pintor francez. Não o tem conseguido porem até hoje e essa preoccupação só tem concorrido para o prejudicar, pois que quem possue tão excellentes qualidades, como o testemunham os seus trabalhos. não precisa nem deve prender-se com imitações.

Luciano Freire

O Sr. Freire expõe quatro télas, resentindo-se algumas dellas de pouco cuidadas. Icicas talvez um tudo nada por descargo de consciencia. A esta exposição o novel artista não figura bem á altura dos seus creditas de trabalhador infatigavel e pintor consciencioso e correcto. 

D'entre os seus trabalhos notaremos em primeiro logar o n.° 41 "Na arribana" a cabeça do boi e as mãos são realmente boas, mas no resto a pintura fraquejou alguma cousa. 

O n.° 44 "Ribeira d'Algés" é uma mancha de côr agradavel e nada mais. O n.° 42 "A Rosita" é muito pouco cuidado, e finalmente o "Estudo de cabeça" é correcto, mas foi infeliz na escolha do modelo que é realmente pouco sympathico.

José de Brito

Entre os artistas portugueses que de Paris enviaram trabalhos á exposição do Gremio figura honrosamente o sr. José de Brito com o seu Retrato do Visconde de Pernes, sem duvida um dos melhores, para não dizer o melhor dos retractos da actual exposição. Tem muito caracter e é de uma pintura vigorosa que para logo revela um artista de pulso. .

[v. Isabel Falcão, Em torno da pintura de historia de finais de oitocentos, Lisboa, ACL, 2015]

Expõe o sr. Brito mais duas telas de que gostamos muito menos. Assim por exemplo o n.° 17 "Domingo de Paschoa na aldeia" que apezar de umas cabeças realmente bem pintadas, é de uma composição falta de gosto e sobretudo mal perspectivado.

Quanto ao n.° 15 "Dançarina", se exceptuarmos os braços e a cara, é um pedaço de pintura muito rasoavel. (5)

João Vaz

João Vaz é já vantajosamente conhecido do nosso publico, que sempre applaude os seus trabalhos e honra lhe seja, com toda a justiça.

O genero que este artista explora — a marinha — dá sempre uma nota agradavel ás exposições e a nossa vista repousa suavemente nas suas télas de vastos horisontes e em que os nossos pulmões parecem haurir sofregamente as emações tonicas do Oceano.

 Obra de João Vaz (1859-1931)Galeria de imagens no Facebookclique para aceder
Obra de João Vaz (1859-1931)
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Se em algumas télas se repete, se em outras notamos falta de observação, não é menos verdade que por vezes João Vaz nos dá verdadeiros primores no genero. Assim por exemplo os n.os 161 e 165 "Na praia" e "Baixamar" explendidos de tom e ambos dotados de magnifica perspectiva aerea, são o que podemos chamar dois belos quadros.

Outro tanto não diremos dos n.os 163 e 164, "Em reparos" e "Barca das pescadas" que além de pouco observados, tem figuras bastante mal indicadas, no n.° 162 foge o artista ao genero da sua predilecção, apresentando-nos.uma paisagem que não nos é de todo desagradavel. 

"Um canto d'Evora" faz-nos lembrar os quadros de Rico, sem que comtudo se sinta em João Vaz a preoccupação de o imitar. A verdade porém, é que até nos defeitos de perspectiva linear e aerea esta téla se parece com as do pintor hespanhol. 

O n.° 166 "O velho forte", é que francamente nos desagrada e parece-nos pouco á alturas dos merecimentos de João Vaz.

Diário Illustrado, 16 de março de 1891.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

No salão do Gremio figuram ainda um grande numero de télas de pouca importancia mas em que os seus autores nos revelam boas qualidades que desejamos vêr mais solidamente afirmadas na futura exposição. (6)


(1) O Occidente N.º 441, 21 de março de 1891
(2) Ribeiro Arthur, Arte e artistas contemporaneos (I), 1896
(3) O Occidente N.º 441, 21 de março de 1891
(4) O Occidente N.º 442, 1 de abril de 1891
(5) O Occidente N.º 443, 11 de abril de 1891
(6) O Occidente N.º 445, 1 de maio de 1891


Leitura relacionada:
Os cachopos da Fonte do Cordeiro

Leitura adicional:
Silva Porto cf. Zacharias d'Aça, Lisboa moderna, Lisboa, Viuva Tavares Cardoso, 1907
M. A. O. Costa Mendes, O pintor Marques de Oliveira (1853-1927), Lisboa, ACD, 2015

Informação relacionada:
Nuno Saldanha, José Vital Branco MALHOA (1855-1933): o pintor, o mestre e a obra
M. A. O. Costa Mendes, O pintor Marques de Oliveira (1853-1927), Lisboa, ACD, 2015
Isabel Falcão, Em torno da pintura de historia de finais de oitocentos, Lisboa, ACL, 2015

Temas: Pintura, Grupo do Leão

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