terça-feira, 11 de abril de 2017

Alcântara (a batalha)

D. António [o prior do Crato], que era chamado pelas circumstancias a representar o papel de D. João I, e que, bem como elle, tinha por si o amor popular, foi um miserável, que só se collocou á frente das resistências, as quaes dirigiu sem ordem, sem juizo, e sem energia, porque não lhe chegaram os castelhanos ao preço porque lhes queria vender alma e corpo [...]

Sala de Portugal, palácio de El Viso del Marqués.
Imagem: Flickr

Finalmente a revolta dirigida por D. António, que se fez acclamar rei de Portugal, rebentou em Santarém, e extendeu-se a Lisboa, e a Setúbal, donde os trez governadores affeiçoados ao domínio extrangeiro, e que ahi se tinham acolhido como a logar seguro, fugiram para Ayamonte e declararam francamente, por uma sentença a favor do rei castelhano, que de feito renegavam a independência do seu país.

Entrada no estuário do Tejo da armada espanhola comandada por D. Alvaro de Bazan.
Sala de Portugal, palácio de El Viso del Marqués.
Imagem: Barcos, mar y arte

Entretanto o famoso duque d'Alva, talvez o primeiro capitão do seu tempo, entrava com um poderoso exercito pelo Alemtejo e subjugava successivamente todas as povoações importantes. Chegado a Setúbal e rendida esta villa, embarcou o exercito hespanhol na armada de D. Álvaro Bazan, e desembarcando em Cascaes acommetteu Lisboa, que debalde D. António tentou defender. 

Lisbona citta principale nel regno di Portogallo
fu presa dall'armatta con l'esercito del re catolico all ultimo d'agosto l'anno 1580, Mario Cartaro.
Imagem: Universität Salzburg

Assenhoreados os castelhanos da capital, o reino seguiu brevemente o destino della, e D. António, foragido por muito tempo, teve de ir por fim buscar asylo em França, onde machinou todas as suas vãs tentativas para recuperar um sceptro que não soubera conservar.

Retrato do sitio e ordem da batalha dada entre o senhor dom António, nomeado rei de Portugal, e o duque de Alba, tenente e capitão general do rei católico dom Filipe II, diante de Lisboa por mar e por terra, num mesmo dia, 25 de agosto de 1580. Palmela 5 leguas de lisboa; Almada; Armada de dom António; galeras de sua magestade; Torre Velha que estava por dom António; Rio Tejo; naus de sua magestade; Lisboa; castelo; arrabal de Santa Catarina; portugueses; moinho; italianos; italianos; Burgo; Santo Amaro; quinta; Belém; Torre de Belém; S. Bento; portugueses que fogem; portugueses que fogem; ponte de Alcântara; italianos e ; alemães; alojamiento do exército de sua magestade; campo de dom António; tendas de dom António; portugueses; ribeira de Alcântara; artilharia de sua magestade; espanhois; artilharia de sua magestade; quintas; portugueses de dom António; portugueses; duque de Alba; alemães; cavalaria de sua magestade; Sancho de Avila; arcabuzeiros espanhois que vão acometer cavallos ligeiros; o prior don Fernando; arcabuzeiros a cavalo e ginetes.
Batalha de Alcântara, 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Tal é em resumo a forma por que Portugal caiu debaixo do jugo castelhano. (1)


(1) Alexandre Herculano, Opúsculos Tomo VI, Lisboa, Livraria Bertrand

Artigos relacionados:
Romantismo e Patuleia na Quinta da Rabicha
Geração de 70 e Quinta da Rabicha

Leitura adicional:
José Azevedo, A memória na cidade e os baluartes de Alcântara...
Archivo Pittoresco, n.° 5, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 6, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 7, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 8, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 23, 1862
A. Vieira da Silva, A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças...
Os limites de Lisboa
Leonor Albuquerque, Estudo da Paisagem do Vale de Alcântara

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Alcântara (o baluarte)

Já em 1610 a Câmara pensara em mudar a "Casa da Pólvora" para Alcântara, junto aos Fornos da Cal, mas tal mudança só se fez em 1670, ao que parece, embora haja referências, anteriormente, a uma Torre Pólvora, junto ao baluarte de Alcântara [...]

Pintura da parede do Baluarte do Sacramento
in Cristina Castel-Branco, Necessidades Jardins e Cerca, Lisboa, Livros Horizonte, 2001.
Imagem: A memória na cidade e os baluartes de Alcântara...

O forte do Sacramento foi fundado em uma quinta que, em Alcântara, possuía o Intendente Geral das Obras, Marquês de Marialva, e na qual residiu desde 1635, ano em que se casara com D. Catarina Coutinho. Só em 1640 passou para o seu palácio do Loreto.

O baluarte de Alcântara.
Clair de lune, Alexandre-Jean Noël, Amiens Musée de Picardie.
Imagem: Pastels & pastellists

Como se sabe foi o Marquês a alma da conspiração de 1638. E quer saber o leitor onde se reuniam os conjurados?

Ali mesmo na quinta, sob uma copada árvore, num local sobranceiro ao Tejo. Essa árvore histórica ainda lá existia, em 1862, sobre a muralha do velho baluarte [Archivo Pittoresco, vol. v, pág. 252 — Artigo de Vilhena Barbosa]. Com as obras do moderno quartel de marinheiros e da sua esplanada desapareceu essa relíquia patriótica. (1)

O baluarte de Alcântara.
Alexandre-Jean Noël, FRESS.
Imagem: Pastels & pastellists

Conforme documentam as cartas e o perfil da margem Norte do rio, de que se anexa um extracto, na extremidade Poente de Alcântara ao longo da ribeira, terminava a muralha exterior de Lisboa. Extra muros, existia uma ponte que estabelecia a ligação da cidade, através de uma porta da muralha, aos "arrabaldes" a nascente. Tratava-se de um local amuralhado, vigiado e certamente guarnecido [...]

Plan du Port de Lisbonne et de ses Costes Voisinnes (detalhe), pub. 1756, Jacques Nicolas Bellin (1703-1772).
(Remarques sur la carte du royaume du Portugal)
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Hoje temos conhecimento da existência do Forte do Livramento e do Forte do Sacramento, cada um localizado lateralmente relativamente à porta da muralha.

Ambos os locais foram reconstruidos em 1650 no reinado de D. João IV, conforme vem indicado na carta da BNP cc-293-r_t24-CR0150 de 1837, por ocasião do reforço da defesa do porto da capital após a restauração da independência.


Planta da cidade de Lisboa e de Belém publicada em Londres e copiada em Lisboa em 1837 (detalhe).
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

É provável que estes dois postos tenham resultado de dois redentes da muralha existente, ou seja, duas formações angulares saliente para o exterior da fortificação e que pelas suas posições estratégicas tenham adquirido mais importância.

As muralhas do baluarte.
Travessia da Ponte de Alcântara pela ocasião do casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra.
The Entrance of the Lord Ambassador Mountague into the Citty of Lisbone, Dirk Stoop, 1662.
Imagem: The British Museum



O natural desenvolvimento urbano terá levado, posteriormente, à separação física destes dois elementos por absorção das construções amuralhadas adjacentes e em 1857, como é possível verificar-se nos extractos das plantas em anexo, do forte do Livramento sobrou apenas uma área com canhoeiras e do forte do Sacramento, o baluarte d’Alfarrobeira.

Carta topographica da cidade de Lisboa reduzida, Miguel Carlos Correia Pais - Filippe Folque, levantamento 1856-1858, originalmente publicada em 1871, e posteriormente em 1882 com melhoramentos a vermelho. 
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

Atualmente, o primeiro foi totalmente absorvido pela malha urbana e o segundo foi destruído ao ser atravessado pela Av. 24 de Julho.

O Forte do Livramento encontrava-se localizado entre o Palácio das Necessidades e a porta de Alcântara junto à ponte com o mesmo nome. Ainda hoje o arruamento que lhe era adjacente tem a mesma denominação.

Atlas da carta topográfica de Lisboa (imagem combinada das folhas 47 e 56), Filipe Folque, 1857.
Imagens: Arquivo Municipal de Lisboa 

O Forte do Sacramento, também designado por Forte da Alfarrobeira, estava localizado à beira rio próximo do Convento do Sacramento. (2)


(1) Matos Sequeira, Depois do Terremoto... Vol. IV, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933
(2) Cristina Santos, Fortificações da foz do Tejo, 2014

Artigos relacionados:
Romantismo e Patuleia na Quinta da Rabicha
Geração de 70 e Quinta da Rabicha

Leitura adicional:
Archivo Pittoresco, n.° 5, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 6, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 7, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 8, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 23, 1862
A. Vieira da Silva, A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças...
Os limites de Lisboa
Evolução histórica da Tapada da Ajuda
O palácio do Fiúza: memória de uma residência nobre em Alcântara...
Leonor Albuquerque, Estudo da Paisagem do Vale de Alcântara
José Azevedo, A memória na cidade e os baluartes de Alcântara...

sábado, 8 de abril de 2017

Alcântara (a quinta e o palácio real)

Em 1520 foi construído um  hospital na horta de D. Jerónimo de Eça (Horta Navia) para combater a peste que assolava a cidade. A peste não impediu que se fossem instalando quintas nobres ao longo do Tejo; Alcântara situava-se então junto aos limites da já formada Freguesia da Ajuda.

Lisboa, Alcântara (Planta do Almoxarifado do Paço), 1848.
Imagem: Arquivo Nacional Torre do Tombo

A Ermida de Santo Amaro foi iniciada em 1549 e ficou a servir de sacristia, tendo levado muitos peregrinos ao local.

Vista  de Santo Amaro e Perspectiva do lugar de Bellem, Dirck Stoop, 1662.
Imagem: British Museum

Ali será erguido, além do Convento da Nossa Senhora da Quietação das Flamengas (1586), o Convento do Monte Calvário, em frente ao primeiro, fundado por D. Violante de Noronha — filha de D. Francisco de Noronha com Maria de Azevedo e mulher de Pedro da Costa, armeiro-mor, em 1617 — e que hoje é a Escola Superior de Polícia; e o Palácio Real de Alcântara, destruído pelo Terramoto de 1755.

Viaje de Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669), Villa Realle D Alcantara, Pier Maria Baldi.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

D. Filipe II nomeara D. Teodósio de Frias como arquitecto real deste Palácio, em 1603. O Palácio Real de Alcântara encontrava-se situado no lado direito da rua que sai do Arco para St.º Amaro, que em 1765 se denominava Rua de S. Joaquim, correspondendo à actual Rua 1.º de Maio, seguindo-se à então Rua Direita do Ferrador, actual Rua Direita de Alcântara [...] (1)

Lisboa, Alcântara, Grande Panorama de Lisboa (detalhe), Museu Nacional do Azulejo 01.jpg
Imagem: Histórias com História

[...] a rua do Livramento continua-se com a de Alcântara (...) onde está hoje o grande edifício que tem face para o Largo do Calvário e a Rua de Santo António, que era o velho Palácio de Alcântara ou do Calvário. Neste palácio, que foi primitivamente residência particular de um rico italiano, e depois "adquirida" por Filipe II de Espanha, habitaram D. João IV, D. Afonso VI e Pedro II. Foi aí que Afonso VI e Castelo Melhor se reuniram em 1662 para proclamarem revolucionariamente a maioridade do rei. (2)

Vista e perspectiva da Barra Costa e Cidade de Lisboa (detalhe),  Bernardo de Caula, 1763.
42 Cazas de Gaspar D de Saldanha; 43 Cazas e Pateo D de Saldanha; 44 Junqueira e q.ta da Condeça da Ega;
45 Forte da Junqueira; 46 Palacio do Cardeal Patriarcha; 47 Sam Amaro; 48 Quinta do Conde Daponte;
49 N.a S.ra de Bona morte; 50 Q.ta e Palacio das necefsidades; 51 O Con.to do livramento; 52 arrebaldo e Porta d'alcantara; 53 Buenas Ayres; 54 Pampouilla e S. F.a de Paula; 55 Jannellas verdas; 56 N.a S.ra da Lapaz; 57 N.a S.ra dos Navegantes; 58 As Tercenas B.ro do Mocambo; 59 Fraiguezia de Santos; 60 os Barbadinhos francezes; 61 os apostolos Caza da aula.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

D. Pedro II escolheu como sua residência o vizinho palácio de Alcântara e tornou-se Juiz perpétuo da Irmandade de Nossa Senhora da Quietação em 1694. Quando morreu deixou sepultado o seu coração na capela-mor da igreja das Flamengas estando ainda hoje o local assinalado por uma lápide. (3)


(1) Alexandre Honrado, As Flamengas (da Ordem das Clarissas)
(2) Ruas de Lisboa com alguma história cf. Guia de Portugal, Lisboa e arredores, Vol. I...
(3) Alexandre Honrado, Idem 

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Leitura adicional:
Archivo Pittoresco, n.° 5, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 6, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 7, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 8, 1862
Archivo Pittoresco, n.° 23, 1862
A. Vieira da Silva, A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças...
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O palácio do Fiúza: memória de uma residência nobre em Alcântara...
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Paixão por Lisboa
Ruas de Lisboa com alguma história
Histórias com História

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Alcântara (a ponte, propriamente dita)

Esta ponte tem a infausta celebridade de dar o nome á batalha que junto d'ella pelejaram as tropas de Dom Antonio, prior do Crato, contra o exercito invasor de Filippe II de Castlella, commadado pelo duque de Alba.

Ponte de Alcântara, desenho de Nogueira da Silva, 1862.
Imagem: Hemeroteca Digital

Esses poucos defensores da independencia nacional succumbiram ao poderio da esquadra e das armas hespanholas, que só depois d'esta victoria se apossaram de Lisboa, começando n'esse dia, 25 de agosto de 1580, o seu tyrannico dominio de Portugal, durante sessenta annos de oppressão e de inauditas extorsões. 

Foi já descripta esta memoravel batalha, com os toques e colorido que pedia tal quadro, pela magica penna do sr. Rebello da Silva, a pag. 49 e subsequentes d'este volume do "Archivo" (e também com mais desenvolvimento na Historia de Portugal nos seculos XVI e XVII por L. A. Rebello da Silva t. II pag. 530).

Ponte de Alcântara, Batalha de Alcântara, 1580, representação c. de 1595.
Imagem: Biblioteca Nacional de Portugal

N'aquelle tempo a ponte d'Alcantara estava solitaria, porque ficava n'um arrabalde despovoado pertencente á freguezia d'Ajuda. Foi-se ella successivamente cobrindo de habitações, hortas e residencias nobres, eté que se formou um bairro, e depois do terremoto uma parochia.

Em 1743 alargou-se a ponte e foi-lhe foi posta uma imagem de S. João Nepomuceno, de pedra, estatura colossal, obra do esculptor italiano João Antonio de Padua, que além de muitas outras de estatuaria que d'elle existem ainda em Portugal, fez a esculptura da capella-mór de S. Domingos de Lisboa, as imagens da capella-mór da Sé de Evora e os pulpitos da egreja do collegio de Santo Antão.

S. João Nepomuceno,
João A. de Pádua, 1743.
Imagem: Wikimedia

Padua era comtudo um esculptor mediocre, e as obras que fez devem muito á habilidade de Pedro Antonio Luques, seu ajudante e debastador [...]

Lisboa, porta da cidade junto à ponte de Alcântara e estátua de S. João Nepomuceno.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Quando ultimamente se fez a circumvallação de Lisboa, cortou-se parte da cortina da ponte para recuar mais a porta da cidade que alli ha.


(1) Archivo Pittoresco, n.° 23, 1862

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Geração de 70 e Quinta da Rabicha

Leitura adicional:
Archivo Pittoresco, n.° 7, 1862
A. Vieira da Silva, A Ponte de Alcântara e suas circunvizinhanças...
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Leonor Albuquerque, Estudo da Paisagem do Vale de Alcântara
José Azevedo, A memória na cidade e os baluartes de Alcântara...
Paixão por Lisboa

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O milagre d'Ourique

Depois de publicado o primeiro volume da Historia de Portugal alguns rumores se levantaram contra o auctor, por causa do milagre d'Ourique.

O milagre d'Ourique, Domingos António de Sequeira (1768-1837), Musée Louis-Philippe, Eu.
Imagem: Joconde

Fogo perdido; uma que outra sentinella avançada. Os olhos penetrantes de Alexandre Herculano viam, atraz d'isto, as massas do exercito disciplinado. Esperava um ataque em forma. 

Não tardou: foi nas entradas de junho de 1850. Era um dia santo; não me lembra se o de Santo António. Creio que sim. 

Os sinos haviam repicado pela manhã, vibrando, festivaes, por aquelle valle fora. Os sinos, que Alexandre Herculano descrevera n'uma das paginas mais brilhantes do seu "Monge"! 

Pois seria no âmbito do templo, em que se ostentava o campanário, que elle tinha cantado, que um padre violento, descomposto, e protervo, com indignação dos homens de bem e jubilo intimo dos hypocritas, havia de insultal-o, procurando levantar contra elle a indignação popular! 

O caso deu brado: teve echos estrondosos! Era pouco antes do jantar, quando entraram a porta D. João Pedro da Camara, D. Gastão da Gamara, e um empregado de toda a confiança de Herculano, homem honradíssimo, chamado Seixas.

D. João da Gamara e D. Gastão, dois rapazes valentes, vinham enfiados e trémulos; o velho Seixas grandemente commovido.

O nome de Herculano, por todos aquelles arredores, não só era querido, mas também profundamente respeitado. 

Alexandre Herculano.
Imagem: Falling into Infinity

Semelhante desacato tinha alcance! Atirar com um nome, como o do auctor do Eurico, á praça publica, cuspido com as injurias de "ignorante, ímpio, e hereje", e isto do alto d'um púlpito, era serio!

D. João da Camara consultou commigo o que se havia de fazer. 

— Contar toda a verdade ao mestre — respondi eu.

D. João da Camara principiou a narrar o facto. Alexandre Herculano enfiava. Depois com o queixo em grande tremor, o que se dava sempre que se commovia, os olhos chispando de justa indignação, atirou uma palmada sobre a mesa do trabalho, que fez saltar papeis, livros e tinteiro, exclamando com ímpeto: 

— Elles querem brigar commigo! Pois agora o veremos! Cinco minutos depois dizia-nos, na apparencia já socegado: 

— Nunca pensei, que chegassem a tanto. Vamos ao jantar. 

E accrescentava, esfregando as mãos:

— Apanham uma lição tremenda!

No fusilar dos olhos, na ruga perpendicular da testa espaçosa, que as sobrancelhas contrahidas tornavam mais funda, na convicção das suas palavras, francamente, sentia-se a força de um gigante. 

N'essa tarde saímos a espairecer pelo valle das Romeiras, e fomos cair á horta.

Herculano, como de ordinário, deu as suas ordens ao caseiro, anafou o pello luzidio das turinas, e não fallou mais no facto. Os olhos tinham a serenidade habitual, mas o brilho era mais intenso. 

Aquella robusta e elevada razão mediu o alcance da lucta, que ia travar-se, calculando o vigor e ao mesmo tempo a prudência, que devia guardar-se, ao atirar dos golpes. Atraz de alguns padres maus ou ignorantes, o clero tinha homens de saber e de talento, que, provavelmente, entrariam no combate.

O jornal "A Nação" contava redactores como Manuel Maria da Silva Bruschy, João de Lemos, Gomes d'Abreu, D. Jorge de Locio, e outros. 

Comquanto entre esses homens alguns, como Silva Bruschy e João de Lemos, fossem ami- gos e admiradores sinceros de Alexandre Herculano, o partido a que pertenciam impunha-lhes o dever de saírem em defeza das suas idéas, porque, no fundo, a batalha ia ferir-se entre a escola liberal e a reacção. 

No dia seguinte, depois do almoço, Herculano sentou-se á mesa do lavor.

Deu um talho nas pennas de pato, e no alto de uma folha do antigo papel almasso, azulado, forte, granulado, escreveu esta destemida antithese: "Eu e o Clero".

Este titulo foi uma das coisas, que asperamente lhe censuraram os seus adversários, alguns de estatura elevada e de pulso vigoroso. 

A penna rangia sobre o papel, traçando linhas direitas, como se fossem pautadas, da lettra do mestre, firme, clara, e egual, como o seu caracter! 

De tempo a tempo depunha a penna no grande tinteiro antigo de latào, estendia o braço direito com a mão forte e espalmada sobre as folhas já escriptas, reclinando-se no espaldar da cadeira, e correndo a mão esquerda pela testa inspirada, ampla e luminosa.

Eu, sentado defronte d'elle, no logar onde habitualmente trabalhava, não lhe perdia um movimento, e, ao escrever estas linhas, aviva-se-me a impressão, que sentia então — uma espécie de susto!

As ondas de luz de um magnifico dia de junho entravam pela janella. O sol frechava as aguas serenas do Tejo, que, estremecendo, faiscavam em faúlhas de prata.

O silencio era apenas interrompido pelo sino da torre, redondo e sonoro, que batia as ho- ras e os quartos. 

O grande luctador, n'aquella tranquillidade apparente, na força da vida e do talento, vibrava os primeiros e tremendos golpes da rija espada, no prologo de uma das suas mais renhidas batalhas! Era uma imponente figura!

Ao jantar esteve de excellente humor, e de tarde passeámos como de ordinário. 

No dia seguinte, chegando quasi ao epilogo do seu opúsculo, o grande historiador exclamava, com esta eloquência:

"Quando a egreja, envolvendo a fronte no véo da sua immensa tristeza, e sentindo humedecer-lhe os pés o sangue humano, vertido pelo ferro sacerdotal, contempla aterrada o futuro, ha dor de individuos, a que seja licito um brado?"

ooOoo

O "Eu e o Clero", como era de esperar, accendeu a questão na imprensa!

O jornal "A Nação" acudiu ao seu posto de honra. Censurou os padres, que insultavam o caracter e o talento de Alexandre Herculano, floreou cortezmente o ferro deante do mestre, caiu em guarda, mas em seguida atirou-lhe os primeiros botes.

D'alli a pouco, Alexandre Herculano estava debaixo do fogo de todas as baterias inimigas, e elle só, respondendo, avançando, carregando, e já a trepar ao assalto, com a espada nos dentes, para os acutilar na brecha! 

Visão de D. Afonso Henriques, Frei Manuel dos Reis, 1665.
Imagem: MatrizPix

A lucta continuou. Eu parti a 5 de agosto d'esse anno — 1850 — para a ilha da Madeira, e voltei no principio de março do anno seguinte. Ainda se batalhava!

Para se ver o vigor intellectual do grande historiador, deve notar-se que, durante todo aquelle grave conflicto, não alterou em nada os seus hábitos; nunca deixou de vir duas vezes por semana á Torre do Tombo, continuando a escrever a Historia de Portugal!

Como succede em todas as coisas, por maiores, por mais solemnes que sejam, não faltaram os episódios cómicos.

Certo padre, a quem Alexandre Herculano, para espairecer, dissera uns gracejos, n'uma carta impressa, devolveu-lhe o papel dentro de um grande sobrescripto; mas de tal modo vinha "perfumado", que foi preciso acudir á agua de Colónia, para desinfectar o quarto! 

Casa de Alexandre Herculano na Ajuda, Largo da Torre, Alberto Carlos Lima, década de 1910.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

O clérigo, nos transportes do seu furor, apellou para a mais grossa das pulhas de carnaval! A explosão de cólera do padre, coitado, só podia ser comparável á explosão de gargalhadas, em que rebentámos, Herculano e eu! (1)


(1) Bulhão Pato, Memórias Vol. I, Scenas de infância e homens de lettras, Lisboa, Typographia da Academia Real das Sciencias, 1894

Leitura relacionada:
Alexandre Herculano, O Monge de Cistér, Tomo I, Lisboa, Aillaud e Bertrand, 1918
Alexandre Herculano, O Monge de Cistér, Tomo II, Lisboa, Aillaud e Bertrand, 1918
Alexandre Herculano, Eu e o Clero, Lisboa, Imprensa Nacional, 1850

Leitura adicional:
Ana Isabel Buescu, Alexandre Herculano e a polémica de Ourique...

quinta-feira, 30 de março de 2017

A barca e o balão de Bartolomeu de Gusmão

Eu ElRey faço saber, que o P. Bartholomeu Lourenço me representou por sua petição, que elle tinha descoberto hum instrumento para se andar pelo ar, da mesma sorte que pela terra e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais legoas de caminho por dia [...]

Bartolomeu Lourenço (1685-1724) apresenta o "instrumento para se andar pelo ar" em 1709
na Sala das Embaixadas perante a Corte Portuguesa,
Bernardino de Souza Pereira (1895-1985), 1940.
Imagem: Museu Paulista da Universidade de São Paulo

A 7 do mesmo mês, veio o dº P.e com um meio globo de madeira delgada, e dentro trazia um globo de papel grosso, metendo-lhe no fundo uma tijela com fogo material, o qual subiu mais de 20 palmos e como o fogo ia bem aceso, começou a arder o papel, subindo, e o meio globo de madeira ficou no chão sem subir, porque ficou frustrado o invento.

E, como o globo ia chegando ao tecto da casa, acudiram com paus dois criados da Casa Real, para evitar o pegar [fogo] e haver algum desastre; assistindo a tudo S.M. com toda a Casa Real e várias pessoas [...]

Três coisas são pois são necessárias à ave para voar, convém a saber: asas, vida e ar; asas para subir; vida para as mover; e ar para as sustentar. De sorte que faltando um destes três requisitos, ficam inúteis os dois; porque asas sem vida não podem ter movimento; vida sem asas não pode ter elevação; ar sem estes indivíduos não pode ser sulcado [...]

Esta fera Passarola,
que leva, porque mais brame,
trezentos mil réis de arame,
somente para a gayola;
esta urdida paniola,
ou este tecido enredo,
esta das mulheres medo,
e emfim dos homens espanto,
assim eu fora cedo santo,
como se hade acabar cedo [...]

Figura da barca inventada em 1709
por Lourenço de Gusmão (1685-1724) Capelão do Rei de Portugal
para se elevar e dirigir nos ares.
Imagem: Bibliothèque nationale de France

Mete esse invento onde tens o siso,
Vê se no vento, que está nele, voas;
Que outro voar, meu Lourencinho, é riso [...]

O engenheiro volante já não gasta papéis, senão arames na fábrica do seu invento dizem ter gasto muito [...] Ele enfim vai com a sua teima adelante e El Rey lhe mandou dar as chaves da quinta do Duque de Aveiro a S. Sebastião da Pedreira, para nela haver de dispor o tal engenho, que só em arames ouço ter gasto 200 mil [réis]. (1)


(1) Francisco V. Louro, Father Bartholomeu Lourenço de Gusmão...

Informação relacionada:
Bartolomeu Lourenço de Gusmão: o primeiro cientista brasileiro

Leitura relacionada:
Reproduction... d'un dessin... de sa description et de la pétition adressée au Jean V... (1709)...

domingo, 26 de março de 2017

Meme de Bulhão Pato no Leão d'Ouro

Uma vez por semana, parece-nos que ás quintas-feiras, [Bulhão Pato,] saía para Lisboa com a senhora, muito bonita com as suas mangas de presunto e os seus grandes laços de tule á volta do pescoço.

Meme Ribeiro Cristino, Columbano, José Campas, Malhoa, Girão, António Ramalho, M. A. Bordalo Pinheiro.
Cervejaria Leão d'Ouro (1905)
Imagem: Rui Granadeiro

O Joaquim do Fidalgo vinha buscá-los, com o seu velho trem puxado por dois cavalinhos velhotes e eles aí iam a caminho de Lisboa, para almoçar não nos lembra se no Leão de Ouro se no Estrela de Ouro... 

Meme Ribeiro Cristino, Columbano.
Cervejaria Leão d'Ouro (1885)
Imagem: Rui Granadeiro

O carrinho, claro, ficava do lado de cá em Cacilhas. Nesse tempo, os barcos já eram movidos por vapor mas ainda não transportavam carros, como hoje. (1)


(1) Diário de Lisboa, 24 de agosto de 1956

Mais informação:
(1) As meninas da Torre

Artigos relacionados:
Leão d'Ouro (1939) o leilão dos quadros
Leão d'Ouro (1905) nova sala
Leão d'Ouro (1885) cervejaria museu
Paradoxo da Arte dita Contemporânea de Exposição não Permanente