sábado, 18 de novembro de 2017

Lisboa c. 1700, no traço de Jacques Martin por Luís Diferr

Quando era adolescente e lia, "absolutamente estupefacto", as aventuras de Alix desenhadas por Jacques Martin, o português Luís Diferr estava longe de imaginar que um dia, no futuro, ia assinar um álbum de uma série do universo do grande autor da banda desenhada franco-belga.

Rua Nova dos Mercadores (detalhe), As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

E ver o seu nome na capa, ao lado do do criador de álbuns clássicos como O Último Espartano ou As Legiões Perdidas, e de personagens como Alix, Lefranc, Jhen ou Loïs [...]

Capa do albúm, Portugal, Luís Diferr, edições ASA, 2010.
Imagem: Kuentro

O autor português recordou ao DN como tudo começou. "Eu encontrei-me o Jacques Martin no Festival de Banda Desenhada da Amadora em Outubro de 2002, estavam lá também o Rafael Morales, desenhador, e o editor, o Jimmy Van den Hautte. Já conhecia o Martin de um Salão da Sobreda e estive a falar com o Jimmy". 

O terraço da Torre de Belém ou Forte de S. Vicente, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Luís Diferr (no Blogger)

Mostrei-lhe o último álbum que fiz, Os Deuses de Altair, e umas fotocópias de outros trabalhos, e ele propôs-me fazer este álbum do Loïs. Na altura não percebi o que era, porque ainda não existia a série, que se passa na época do Luís XIV. Algum tempo depois, o Jimmy mandou-me algumas fotocópias do primeiro álbum, que estava em produção, eu enviei-lhe uma proposta e um desenho de base, que foi o dos Jerónimos, e foi assim que tudo arrancou".

Praia do Restelo e Mosteiro dos Jerónimos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Começaram então seis anos de "trabalho gigantesco", como conta Luís Diferr.

Aqueduto das Águas Livres (iniciado em 1731) sobre a Ribeira de Alcântara, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Quando comecei a fazer o álbum tinha um horário completo de professor. Mas quando começou a pesar, tive que pedir uma licença sem vencimento. Foi uma tarefa muito exigente, em termos gráficos como na procura e consulta de documentação. Quando me envolvi neste projecto, nunca me passou pela cabeça o trabalho que iria ter".

Praça do Rossio, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

"Tendo como referente que as histórias de Loïs se passam no reinado de Luís XIV, Diferr situou Portugal "entre meados do século XVII e do século XVIII [v. Lisboa do século XVII 'a mais deliciosa terra do mundo']. É a época de D. João V, que foi um rei absolutista à maneira de Luís XIV" .

Mercado da Ribeira junto à Casa dos Bicos, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

Diferr fez "tudo" em Portugal, "excepto a introdução, que é do Jacques Martin. Os desenhos são todos meus, bem como as fotos, excepto duas ou três.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Kuentro

Ele acompanhava o trabalho que lhe era submetido à apreciação, via os desenhos a lápis, dizia para modificar isto ou aquilo. Depois, eram passados a tinta da china e a seguir iam à cor. Mas pouco tempo depois, ele afastou-se por causa dos problemas de vista de que sofria, e a validação dos desenhos passou a ser feita por um comité da Casterman", conta.

Sé de Lisboa  ou Igreja de Santa Maria Maior, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem: Ilustração por autor de BD (I) - Luís Diferr

O autor de Alix "era muito exigente" e Diferr teve "alguns problemas, sobretudo por causa da vista dele. O Jacques Martin sabia muito bem o que queria, mas já estava com muita dificuldade em avaliar os desenhos, não os conseguia ver como um todo. Tinha que usar um aparelho que os ampliava aos bocados e depois que os reconstruir na sua cabeça".

Vista geral de Lisboa na direcção nordeste, As Viagens de Loïs, Portugal, Luís Diferr.
Imagem:

O álbum levou a que fosse proposto ao autor luso "uma das personagens do universo do Jacques Martin, o Jhen. Também apresentei algumas propostas à Casterman, mas umas não avançaram e outras estão em espera", revela.

Segundo Luis Diferr, ela chama-se Joana. Nascida em Sintra, perto de Lisboa, o que faz que ela sempre tenha gostado de respirar o ar puro da montanha e do mar. A sua expressão doce esconde uma alma que sabe muito bem o que quer...
Imagem: AlixMag

"Este álbum vale por si mas também pelas portas que pode abrir, ali ou noutra editora. Espero que alguma coisa se resolva, até porque o mercado franco-belga é muito competitivo, ainda mais para alguém de fora. Mas pronto, a esperança é a última a morrer". (1)


(1) Diário de Notícias, 16 de junho de 2010

Informação relacionada:
Loïs au Portugal?
Les voyages de Loïs, Le Portugal, Interview de Luís Diferr
Apresentação de "As Viagens de Loïs – Portugal" de Luís Diferr (texto e desenhos)...
Jacques Martin – Luís Diferr
Ilustração por autor de BD (I) – Luís Diferr
As Viagens de Loïs – Portugal
Amadora BD – Luís Diferr

Mais informação:
Luís Diferr (no Facebook)
Luís Diferr (no Blogger)
Luís Diferr (no Sandawe)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Maureen O'Hara, Lisbon (1956)

Aristides Mavros (Claude Rains), um contrabandista internacional, com sede em Lisboa, fez um contrato com Sylvia Merril (Maureene O'Hara), jovem e linda mulher dum ancião americano multimilionário, Lloyd Merril (Percy Marmont), a fim de conseguir a sua fuga e liberdade dum país atrás da Cortina de Ferro, onde se encontra incomunicável durante dois anos.

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: OK.RU

Precisando dum barco veloz, Mavros contrata o serviço do capitão Robert Evans (Ray Millard), um ex-oficial da Marinha de Guerra dos E. U., actualmente exercendo actividades ilegais, transportando contrabando de vinhos e jóias no seu barco "Orca". 

Lisbon, 1956, participação de Anita Guerreiro com o fado-marcha "Lisboa Antiga" aos 26' 47".
Imagem: OK.RU

Evans aceita o encargo pelo valor de $10.000, ficando no barco aguardando a chegada da embarcação de pesca que transporta Merril, próximo do porto de Lisboa. 

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: OK.RU

Sylvia apaixona-se por Evans, tendo Mavros sugerido que, se o seu marido for entregue morto, ela poderá vir a herdar os milhões deste e casar-se com um homem da sua idade. 

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: eBay

A mulher apaixonada aceita a proposta, prometendo pagar pelo trabalho um milhão de dólares. Mavros ordena a Serafim (Francis Lederer), companheiro da viagem, que mate Merril e Evans, lançando o cadáver ao mar e trazendo o de Merril como prova da sua morte.


Com a chegada do barco de pesca, Merril é transferido são e salvo a bordo do "Orca". Na viagem de regresso, Evans surpreende Serafim atentando contra a vida do industrial milionário e, durante a luta, o agressor é morto. 

Lisbon, Maureen O'Hara & Ray Milland, 1956.
Imagem: OK.RU

Evans entrega Merril salvo à sua desconcertada Sylvia, sendo Mavros preso por contrabando e Sylvia aconselhada para de futuro, cuidar melhor do seu marido. Evans parte, para viver uma vila alegre, com a sua futura esposa, Maria Masant. (1)


(1) Folheto de Cinema – Teatro Vitória (IX) – "Lisbon"

Informação relacionada:
Portugal através do mundo: "Lisbon" de Ray Milland (1956)
International Movies Poster

domingo, 5 de novembro de 2017

Carta de Lisboa por Miguelanxo Prado

Este libro, feito en colaboración co escritor Eric Sarner, tivo ata o momento edicións soamente en francés (edición orixinal) e en edicións biligües portugués - francés/inglés/castelán co título Carta de Lisboa.

"Esperando a D. Sebastião."
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Calquera delas é xa moi difícil de atopar.

"La luz de Lisboa, de nuevo, cruzando o Teijo"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Tanto Eric como eu coñeciamos Lisboa desde facía tempo e acordamos unha metodoloxía de traballo simple: durante os quince días que duraría a nosa estancia percorreriamos xuntos a cidade, tomariamos notas e apuntes, pero en ningún momento os compartiriamos, de maneira que a visión do un non condicionase a do outro.

"Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Así o fixemos. 

"Ver a los conductores del "28" manejar esos paquidermos metálicos es todo un espectáculo"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Só houbo dúas claras violacións do acordo.

"Lisboa, de nuevo. Ensoñada"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

A primeira, que ao cabo de dous ou tres días os dous advertimos que, imprevisiblemente, Lisboa estaba chea de sutís referencias animais.

"Lisboa, siempre Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Estaba claro que ese fío condutor aparecería en texto e imaxes.

"Alfama, Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

A segunda, un fascinante suceso cunha fotografía atopada por azar nun lugar inverosímil.

"Mercadillo y rastro en Lisboa"
Carta de Lisboa, Miguelanxo Prado, (desenhos), Eric Sarner (argumento),Meribérica/Líber, 1998.
Imagem: Miguelanxo Prado (fb)

Era imposible non facer comentarios e elaborar unha historia común ao redor daquel achado. (1)


(1) Une lettre trouvée à Lisbonne

Mais informação:
ActuaLitté, Miguelanxo Prado, cet immense talent de la bande dessinée espagnole
Ardalén
Miguelanxo Prado (fb)
www.miguelanxoprado.com
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Informação derivada:
Pisca de Gente
Largo da memória

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

José Rodrigues (1828-1887), quadros diversos e retratos

Lista de quadros de diversos generos pintados a oleo por José Rodrigues (segundo apontamentos deixados por elle proprio na sua carteira)

Auto-retrato do pintor José Rodrigues aos 32 anos (detalhe).
Imagem: Wikipédia.

1 O pobre da púcara; meio corpo. Pertencia a el-Rei D. Fernando.
2 O pobre rabequista, composição de tres figuras do tamanho natural. Pertencia a el-Rei D. Fernando. Hoje ao snr. Conde do Ameal.

O pobre rabequista ou O cego rabequista, José Rodrigues, 1855.
Imagem: MNAC

3 O malmequer. Pertencia a D. Maria Rufina de Lima Iglesias.
4 Os peixes.
5 Penhascos da Mancha. Pertencia ao Marquez de Sousa Holstein.

Penhascos da Mancha, José Rodrigues.
Imagem: Wikipédia

6 O guarda da linha ferrea. Pertencia ao mesmo.
7 Scena oriental.
8 Dois marroquinos em repoiso.
9 O antigo vendedor de agriões em Cintra. Pertencia a el-Rei D. Luiz.
10 O rapaz pedinte. Pertencia ao mesmo senhor.
11 A sésta do porco.
12 Os patos na levada.
13 A recusa, quadro de costumes da edade média; pequenas dimensões.
14 A cosinha.
15 A camponeza. Pertencia a el-Rei D. Luiz.
16 O jantar do varredor.
17 O sapateiro.
18 Tarde de inverno.
19 O aguaceiro.
20 Os salteadores na caverna.
21 A ceia dos salteadores.
22 Os cisnes. Pertencia a F. Lourenço da Fonseca.
23 O pôr do sol. Pertence a Francisco Parente da Silva
24 A camponeza.
25 A criada. Pertencia a Carlos Relvas.
26 O cosinheiro. Pertencia ao mesmo.
27 Margens do Tejo, proximo de Santarém. Pertencia a el Rei D. Luiz.
28 Nossa Senhora da Conceição, para Guimarães.
29 Nossa Senhora das Felicidades. Pertencia a D. Maria Rufina de Lima Iglesias.
30 A Madre Theresa do Lado. Pertencia á mesma.
31 Flores e frutos; altura 1m,09, largura 1m,72. Pertencia a el-Rei D. Fernando.
32 As portas do Ceo, quadro do tecto da capella do cemiterio dos Praseres.

As portas do Céu, Capela do Cemitério dos Prazeres, José Rodrigues.
Imagem: Amélia Monteiro, VortexMag

33 Quadro do tecto da sala do Tribunal do Commercio de Lisboa.
34 A Cidade de Lisboa, quadro do tecto da sala grande das sessões da Camara Municipal de Lisboa 5.m de largo, por 4.m de alto. 1883.

Tecto do Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa, José Rodrigues, 1883.
Imagem: Mundo Indefinido

35 A carta da namorada. Pertencia a Francisco Ricca.
36 A volta da cidade. Pertencia ao mesmo.

*
*     *

Lista dos retratos pintados a oleo por José Rodrigues (segundo apontamentos deixados por elle proprio no seu album) 

1847
1 D. Maria Rita de...
2 José de Sousa. 

1848
3 Pedro Rodrigues de Carvalho. 
4 Joaquim Bento Pereira (Barão do Rio Zêzere em 1851.) 
5 D. Joaquina Lucia de Brito Velloso Peixoto, (Baronesa do Rio Zêzere.) 
6 José Bernardino Frasâo. 
7 D. Henriqueta Mathilde Frasão. 
8 D. Marianna Victoria de...

1849
9 Francisco de Paula Cardoso. 
10 Roberto Cohen. 
11 Alfredo Fernandes Claro. 
12 Antonio de Almeida Didier (menino de 8 annos.)

1850
13 José Daniel Colaço, depois Cônsul Geral e Ministro em Tanger, e barão de Colaço de Macnamara. 14 ... Ferreira, Escrivão de Direito em Guimarães.
15 Luiz Pinto Tavares (residente em Castello Branco)
16 Cândido José de Oliveira.
17 Luiz Carlos Leão Trinité.
18 Visconde de Oçrar, Antonio Maria Pereira da Costa, General de Brigada.
19 Viscondessa de Ovar, D. Maria Rita de Oliveira Pinto da França.
20 José Firmo Ferreira dos Santos, Medico cirurgião.
21 Dr. Antonio Dias de Azevedo, irmão do Conde de Podentes.
22 D Emilia Brower, sua mulher
23 José Frederico Pereira da Costa (Ovar.)
24 D. Theresa Jacintha Maria Sanz Monteiro.

1851
25 Constantino Rodrigues Batalha.
26 ... de Andrade, Commundante de Artilharia 1.
27 João Firmino Ribeiro.
28 Francisco Rodrigues Batalha
29 D. Maria José Couceiro Stamp
30 D. Theresa Clara Cardoso de Faria e Maia.
31 Repetição do mesmo, para a Ilha de S. Miguel.
32 José Marcellino, Coronel de Artilharia.
33 Copia de um retrato a daguerreotypo para o Rio de Janeiro.
34 Conego Mendes.
35 Visconde do Pinheiro, D. Miguel Ximenez.

1852
36 José Avellino da Costa Amaral.
37 Joaquim Antonio dos Santos Teixeira, Cirurgião em chefe do Exercito.
38 D. Camilla Adelaide Stamp.
39 Joaquim Ignacio Ribeiro.
40 José Bernardo da Silva, Capitão de mar e guerra
41 Flammiano José Lopes Ferreira dos Anjos.
42 . .Juiz em Palmella (copia.)
43 Mr. John Stott Howorth.
44 José Vieira da Silva, para Loanda.
45 Mathias José Pereira, para o Maranhão.
46 D. Anna Clara Pereira, para o Maranhão.
47 e 48 Duque de Saldanha, e uma repetição para Coimbra.

1853
49 Duque de Palmella, D. Pedro, copia de um busto.
50 Joaquim Theotonio da Silva, Medico-cirurgião.
51 Antonio Lopes Ferreira dos Anjos.

1854
52 Ricardo Fernandes de Oliveira Duarte.
53 Julio Stamp.
54 Antonio Lopes Ferreira dos Anjos, para a Certan.
55 Barão de Almeida, Antonio Thomaz de Almeida e Silva.
56 Barão de Sarmento, General Ajudante de campo d’el-Rei D. Fernando.
57 D Leonor Magdalena Pecquet Ferreira dos Anjos.
58 José Pedro Henriques Barbosa.
59 D. Maria Guilhermina Marques dos Anjos.
60 D Maria do Ceo da Costa Guerreiro.
61 e 62 Duas meninas em grupo, para o Pará.

1855
63 José Maria do Couto.
64 e 65 Antonio Joaquim Luiz de Sequeira, e D. Gracinda de Jesus Alves de Sequeira, em grupo.
66 Antonio Augusto Martins Ludovice, de reminis- cência.
67 Salvador José Castanlio.
68 D. Carolina Amalia do Carmo Bastos Castanho.
69 Manuel Joaquim Barbosa.
70 D. Amalia Theodolinda Bastos
71 Joaquim Ignacio Ribeiro, repetição do retrato pintado em 1852, ut supra.
72 Sua Magestade el Rei D. Pedro V, do reminiscência, em transparente, para os festejos da Acclamação em Beja.
73 Conselheiro Francisco José Vieira, para o Porto.

1856
74 Antonio Rino Jordão, para Leiria.
75 João Affonso Henriques
76 Viscondessa de Benagazil, D. Catharina Rita Pereira Caldas, copia
77 Guilherme Ribeiro da Cunha
78 José Joaquim Vicente de San-Romão.
79 Sua Magestade el-Rei D. Pedro V, quadro de oito palmos.
80 João Paulo Cordeiro, copia.

1857
81 D. Maria Bernardina da Gama Salema.
82 Sua Alteza a Senhora Infanta D. Isabel Maria
83 Padre Beirão. 
84 Conselheiro José da Silva Carvalho, copia
85 Anonymo,
86 Repetição do dito.
87 D. Catharina Candida de Andrade Lima, copia para Portalegre.
88 João do Couto, para o Brazil.
89 e 90 As meninas Mayas, grupo de duas.
91 D. Rosinda Maria Maya.

1858
92 Sua Magestade el-Rei D. Fernando, para o Rio de Janeiro.
93 D. Gertrudes Magna da Silva Salles.
94 Barão de Almeida, Antonio Thomaz de Almeida e Silva Pertence a sua filha a senhora Baroneza de Almeida D. Anna de Menezes.
95 Sua excellencia o Arcebispo de Braga, D. José Joaquim de Azevedo e Moura, para Braga
96 João Luiz Gonçalves, de reminiscência.
97 Sua Eminência o Cardeal Patriarcha de Lisboa, D. Manuel B nto Rodrigues, para Braga.
98 José Maria Carvalho e Costa.

1859
99 Matteus José Baptista, Medico cirurgião.
100 Fernando Postscli, copia de daguerreotypo.
101 D. Maria Eugenia da Cunha Mattos de Mendia.
102 D. Maria Luisa Telles, para o Rio de Janeiro.
103 José Vieira da Silva Junior.
104 José Joaquim Vicente de San-Romão Junior.

1860
105 Sua Majestade el Rei D. Pedro V, para o salão da Praça do Commercio de Lisboa.
106 D. Maria Luisa de Araújo Telles.
107 D. Maria Candida de San Romão e seu filho, em grupo.
108 José Maria dos Santos.
109 D. Maria Rosa da Costa Lima, mãe do Visconde de Porto Côvo de Bandeira.

1861
110 Condessa de Farrobo, D. Maglalena Pinault, em trajo á Luiz XV, quadro de 2m,30. Pertence a sua filha D. M. Joaquina Quintella casada com Mendonça.
111 Francisco Lourenço da Fonseca.
112 D. Maria José Gaia da Fonseca
113 Joaquim Julio Rodrigues de Macedo.
114 Conde de Porto-Côvo de Bandeira, em trajo de ceremonia como Par do Reino, quadro de 2m, e 30, Pertence ao actual Conde.
115 Alexandre Herculano de Carvalho, para o Gabinete Portuguez de leitura do Rio de Janeiro.

1862
116 Sua Majestade el-Rei D. Luiz, para a sala dos capellos da Universidade de Coimbra, quadro de 3.m de altura.
117 Sua Majestade el-Rei D. Pedro V (de reminiscência) para a escola de Mafra, encommenda da Sociedade Madrépora do Rio de Janeiro.
118 Mademoiselle Cunha.
119 Sua Majestade el-Rei D. Luiz, encommenda do Ministério da Marinha para a sala do docel do palacio do Governo Geral em Moçambique, quadro de 2.m e 60, por 1.m e 70.
120 Sua Majestade el Rei D. Luiz, para Pernambuco, quadro de 3.m por 2.m.

1863
121 D. Maria do Resgate da Graça de Figueiredo.
122 Sua Magestade el Rei D. Luiz, para o Pará, quadro de 5.m.
123 Conde de Rilvas. 124 Joâo Pinto de Araújo, para o Pará.
125 Repetição do mesmo.
126 D. Jeronyma Candida Vieira, copia, para o Maranhão.
127 D. Clotilde da Cunha Ricca, de reminiscência, menina de dois annos de edade.
128 Joaquim Antonio da Silva, para o Pará.
129 Repetição do mesmo.
130 Sua Majestade el-Rei D. Luiz, para a Camara dos Senhores Deputados.
131 D. Cecilia Couceiro Caramaça (de memória.) Existe em poder do snr. Conselheiro Eduardo Pinto da Silva e Cunha na sua quinta do Campo Grande.

1864
132 Sua Majestade el-Rei D. Luiz, para o paço de S. Vicente.
133 Manuel José Dias Monteiro, e D. Anna Isabel Furtado Dias Monteiro, os dois em grupo-quadro de 1,46 por 1.10.
134 Manuel Joaquim de Oliveira.
135 D. Gracinda Alves de Oliveira.

1865
136 José Maria da Silveira Estrella, copia de photographia.
137 D. Anna Telles de Vasconcellos. 
138 Visconde de Porto-Côvo.
139 Joaquim Carlos de Champalimaud; copia de photographia.
140 Sua Majestade el-Rei D. Pedro V, de reminiscência, para a Sociedade de Beneficencia do Rio de Janeiro, quadro de 2.m e 50, por l.m e 50.

1866
141 Frederico Biester, copia de photographia.
142 D. Maria Emilia de Champalimaud Paes, copia de photographia.
143 Jacintho Paes de Mattos Moreira, copia de miniatura.
144 Sua Majestade el-Rei D. Luiz, para Benguella.
145 D. Maria do Carmo Ulrich.
146 Sua Majestade el Rei D. Luiz, para a Camara dos Dignos Pares.

1867
147 Marquez de Niza.
148 Copia de uma photographia, para Caxias (Brazil)
149 Manuel de Sampayo de Sousa Cirne, Junior, copia de daguerreotypo, para Santarém.
150 Joaquim Caetano Lopes da Silva.
151 José Iglesias, em grupo com sua mulher.
152 D. Maria Rufina de Lima Iglesias.
153 D. Maria Ignacia da Costa, da Bahia.
154 Duarte Fernandes, copia.
155 D. Maria Adelaide Baldaque da Silva, mulher de Pedro de Medeiros e Albuquerque, copia de photophia.

1868
156 Henrique Feijó da Costa, de reminiscência.
157 Sua Majestade el-Rei D. Pedro V, para o Asylo do Campo grande.
158 D. Maria Guilhermina da Silva.
159 José Relvas de Campos, de reminiscência.

1869
160 João Anastacio Dias Grande, para Portalegre. Pertence a D. Luisa Grande de Freitas Lomelino e Vasconcellos.
161 D. Anna Francisca dos Santos e Araújo, para o Porto.
162 Repetição do mesmo, para o Pará.

Retrato de Nuno de Freitas Lomelino, José Rodrigues 1869.
Imagem: Museu Quinta das Cruzes

1870
163 José Elias dos Santos Miranda.
164 Conego D. Francisco de Paula de Azevedo.
165 Agostinho Dias Lima, para a Bahia.
166 A mãe do Conego Manuel dos Santos Pereira, para a Bahia.
167 O menino Iglesias, copia.

1871
168 Visconde das Laranjeiras.
169 Manuel Luiz Ferreira dos Santos, para a Bahia.
170 Miguel Antonio Gonçalves da Costa e Amaral, para Mangualde.
171 D. Leonor Margarida de Carvalho da Fonseca e Amaral, para Mangualde.
172 Dr. Seabra, para o Pará.
173 Sogra do antecedente, para o Pará.
174 Jeronymo Mauricio dos Santos.
 
1872, 1873, 1874, 1875
175 D. Emilia Gomes dos Santos, para a Bahia.
176 Antonio Augusto Tarujo Formigai.
177 D. Cecilia Couceiro Caramassa, de reminiscência.
178 Marquez do Bomfim. para o Rio de Janeiro.
179 Flamíniano José Lopes Ferreira dos Anjos, repetição do retrato pintado em 1832.
180 D. Leonor Magdalena Pecquet Ferreira, dos Anjos, repetição do retrato pintado em 1854.
181 Sua Majestade el-Rei D. Luiz, para o Tribunal do Commercio de Lisboa.
183 Jacinto Paes de Mattos Falcão, Conde do Bracial,
184 A mulher do antecedente, D. Emilia.

1876, 1877
185 Antonio Marcellino Facco.
186 D. Ermelinda Mauricia dos Santos Facco.
187 Dr. Josè Maria Borges, Juiz da Relação
188 Um menino, (corpo inteiro) da familia Faria e Maia, da ilha de S. Miguel.
189 D. Guilhermina Godinho de Andrade
190 Fammiano José Lopes Ferreira dos Anjos, nova repetição do retrato de 1852.
191 D. Leonor Magdalena Pecqnet Ferreira dos Anjos, nova repetição do retrato de 1854.

1878
192 A menina Aragao Moraes, de reminiscência.

Photographia [de José Rodrigues]
tirada na Golegan pelo seu amigo Carlos Relvas.
Imagem: Wikipédia

(Por falta de saude e outros motivos particulares, estive dois annos sem pegar em pincéis, e os retratos que fiz depois deixei de aqui os indicar, por falta de animo ou desleixo. Hoje 21 de Abril de l883, querendo continuar esta relação do que me recordo, sem ordem ter assignado, são os seguintes.) Nota autographa do Autor no seu referido Album. 

193 Alberto Neves de Carvalho, para Caxias (Brasil)
194 Antonio João Alves da Cunha e Silva, para o Rio de Janeiro.
195 D. Marianna Alves da Cunha e Silva, para o Rio de Janeiro.
196 Visconde de Castilho, Antonio Feliciano de Castilho, de reminiscência e por photographias: encommenda da Camara municipal de Lisboa para uma das suas escolas [escola municipal de S. Vicente].

Retrato de António Feliciano de Castilho, José Rodrigues, 1883.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

197 Conselheiro Antonio Rodrigues Sampaio, idem.
198 Barão de S. João d'Areias, Manuel de Serpa Pimentel.
199 Dr. Carlos Zephyrino Pinto Coelho.
200 Um Americano, para Liverpool.
201 Antonio Rodrigues Sampaio, repetição.
202 Sebastião José de Freitas.
203 ... Freitas Rego.(1)


(1) Júlio de Castilho, José Rodrigues, pintor portuguez..., Lisboa, Livraria Moderna, 1909

Informação relacionada:
Com Jeito e Arte

Outras referências:
Academia das Bellas Artes de Lisboa, Quinta Exposição, 1862

terça-feira, 24 de outubro de 2017

José Rodrigues (1828-1887), notas biográficas

A José Arthur Bárcia, sobrinho neto do notavel pintor portuguez José Rodrigues, offerece como prova de muita consideração moral, sincero agradecimento e amisade
J. de C.


Auto-retrato do pintor José Rodrigues aos 32 anos (detalhe).
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A Academia Real das Bellas-Artes nenhumas obras possue d’elle; os duzentos e tantos retratos que pintou, alguns admiráveis, acham- se dispersos, em Portugal e no Brazil ; e os seus quarenta e tantos quadros de cavallete, alguns de merecimento elevadissimo, jazem escondidos em poder de particulares ciosos de tamanhas opulências.

Largo de S Raphael na freguesia de S. João da Praça (detalhe), fotografia de J. A. L. Bárcia.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

A própria reputação de José Rodrigues, tâo intensa outr’ora, esmoreceu e descorou; injustiça inconsciente, que é necessário reparar; e uma das mais efficazes e urgentes compensações cabe á Camara Municipal, zeladora nata dos interesses moraes e materiaes da Cidade: compete-lhe assignalar desde já o prédio, onde este eminente pintor viu a luz no pequenino largo de S. Rapliael, freguezia de S. Joâo da praça, e o outro onde veio a fallecer [...] ()

Rua dos Bacalhoeiros (detalhe), fotografia de J. A. L. Bárcia.
A habitação do pintor José Rodrigues é o terceiro andar da segunda casa a contar da direita.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Na Academia encontramos o mocinho, como alumno voluntário no anno lectivo de 1841 para 12 com doze annos, apenas, e admittido a provas em 9 de Outubro de 1841. Dá-se aqui uma circumstancia curiosa: este alumno tinha por condiscipulo um homónymo, nada parente, José Rodrigues de Carvalho, como elle, como elle lisboeta, e como elle aspirante a pintor.

As confusões que necessariamente occorriam a cada passo, incommodavam-n-os; pelo que, requereu oíhcialmente o meu biographado licença para encurtar o nome, chamando-se apenas José Rodrigues, e deixando o Carvalho, apesar de ser já de pae e avô.

Funccionavam na Academia, aquartelada, como Deus era servido, na espelunca de S. Francisco, várias aulas nocturnas, além das diurnas. Das primeiras sei isto:

a aula de Desenho de ornato era regida pelo septuagenário André Monteiro da Cruz, pintor de paizagem e natureza morta;  a de Desenho historico, pelo Professor substituto Francisco Vasques Martins;  a de Geometria e Architectura civil, pelo hábil Professor substituto José da Costa Sequeira, que ainda conheci, parente proximo do grande Sequeira;  a de Modelo vivo, regia-a no 1.° mez Antonio Manuel da Fonseca, Professor eminente de Pintura histórica; no 2.°, o bom Francisco de Assis Rodrigues, Professor de Fscultura ; no 3.°, Domingos José da Silva, discipulo de Bartolozzi, e tratado com consideração pelo áspero Raczynski. Era entre nós Professor de Gravura, e eximio desenhador á penna.

Geniozinhos brincando num regato (gravura em cobre), José Rodrigues.
Imagem: Júlio de Castilho, José Rodrigues, pintor portuguez...

Foram deveras aproveitados os estudos do nosso José Rodrigues, visto como no concurso de Desenho historico do anno lectivo de 42 a 48 obteve, com quatorze annos, um partido de 30S000 reis na copia de baixo-relevo, passando a alumno ordinário em 17 de Outubro de 1842.

Na Exposição de obras dos alumnos, em 22 de Dezembro de 1848, figurou o alumno premiado José Rodrigues, com. o dito baixo relevo desenhado a dois lapis em papel de cor; representava um grupo de meninos, e foi executado em imensões menores que o gesso.

GRUPO DE ARTISTAS
No l.° plano sentados, da esquerda para a direita:
José Rodrigues, Antonio Manuel da Fonseca, Francisco Augusto Metrass.
No 2.° plano: João Christino da Silva, F..., Antonio Victor de Figueiredo Bastos.
(Photographia de J. A. Bárcia).
Imagem: Júlio de Castilho, José Rodrigues, pintor portuguez...
cf. Arquivo Municipal de Lisboa

Outra gloria e outro incitamento foram para José Rodrigues os condiscipulos que o acaso lhe deu:

João Pedro Monteiro, conhecido pelo "Monteirinho", que em 1843 tinha vinte annos, e cujo lapis, tratado benevolamente pelo severo Raczynski, tâo notável se tornou pela graça e firmeza de toque das suas vistas architectonicas e pittorescas de egrejas e monumentos; Metrass, o perito, o sentimental, o mallogrado Metrass, tão fino no trato, moço então de dezanove annos; o meditativo Annunciaçâo, que orçava já pelos vinte e quatro, e em quem ninguém rastrearia ainda, talvez, o paizagista e animalista que veio a ser; Joaquim Pedro de Sousa, uma esperança para a arte da Gravura, que estudou em Paris com Henriquel Dupont; Antonio José Patricio, infelicissima criatura, a cujo incontestável talento dedicou o snr. Rangel de Lima, que o conheceu, um sentido artigo biographico publicado nas Artes e Letras: e outros, emfim, que deixo de enumerar.

Por este tempo, verdade seja, desenvolvera-se o estro e o saber do nosso Rodrigues. Os applausos dos condiscipulos, os prêmios pecuniários nos concursos, e a medalha de oiro no certame triennal de 1849, tudo isso o animou, o incitou, e deu azas ao seu talento. 

Essa medalha, que as mâos da Rainha, a senhora D. Maria II, lhe lançaram ao pescoço, commoveu-o de tal modo, que ao voltar a casa, depois da sessão solemne, vinha n'um estado de perturbação nervosa indefinivel. 

Fechou-se no seu quarto, recusou todo o alimento, chorou, chorou, e quando tornou a apparecer aos seus vinha pallido e desfeito como um cadaver. Entre as suas tentativas primarias figura um bello desenho a dois lápis, retrato d’elle proprio aos dezanove: rosto juvenil e imberbe, olhos brilhantes de mocidade, e, como signal de acriançada extravagancia, uma especie de turbante com pluma. É óptima a execução d'esta cabeça copiada ao espelho, e bem tratada até nos últimos pormenores.

O pintor José Rodrigues, com 19 anos.
Imagem: Júlio de Castilho, José Rodrigues, pintor portuguez...

Outro retrato deixou de si o artista; é um vigoroso quadro a oleo, que parece querer lembrar algum collega seu do século xvi.°: pescoço á vela emmoldurado em collarinhos desabotoados e descabidos, capa negra, e gorro.

Auto-retrato do pintor José Rodrigues aos 20 anos.
Imagem: Arquivo Municipal de Lisboa

Que difterença d’esses devaneios cheios de pujança, para a physionomia cançada e triste do bom José Rodrigues nos derradeiros annos. Não se limitou porém a retratar-se a si mesmo: são dos seus dezoito os primeiros dois retratos pintados já como technico, e por encommenda, em 1847 ; nâo os conheço; sei apenas que representavam D. Maria Rita de ... e José do Sousa, nomes que nada nos dizem hoje [...]

Na lista do proprio autor veem referidos a esse anno [1842] os do General José Frederico Pereira da Costa e de sua mulher, os de seu irmão e sua cunhada o Visconde e Viscondessa de Ovar, o do Dr. Dias de Oliveira, irmão do Conde de Podentes, e o do engraçado artista e bom companheiro de artistas, José Daniel Colaço, depois Barão de Macnamára, Cônsul geral e Ministro de Portugal em Tanger; retrato, que me dizem estar hoje em poder do snr. Francisco de Araújo e Couto.

Bastou o nome de Colaço para me lembrar o rancho alegre e bohemio de artistas, pintores, escultores, caricaturistas, e até amadores sem cotação, que se reunia por esses descuidosos annos, ora n'um café, ora n'um restaurante, ora no saudoso Passeio publico do Rocio, ora n'algurna excursão ruidosa a Queluz ou Cintra: academia de românticos exaltados (como então eram todos os rapazes), bons amigos, namorados lieis, optimos companheiros, para quem um dia bem passado entre sombras era a delicia innocente que melhor os satisfazia.

Cinco artistas em Sintra, João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Todos com pouco dinheiro, mas todos com muito talento e muita pilhéria. Cada um, no fim de uma d'essas passeatas á Pimenteira ou a Algés, em cavalgadas de burrinhos, ou francamente a pé, trazia mais oxygenio nos pulmões, e mais alguns esbocetos no album.

Não frequentei o grupo: era novo de mais; nem conheci então estes bons artistas; falo por informações colhidas por 1874 no trato de Christino. 

Eram elles: Metrass, fino, débil, sentimental, com seus quês de aristocráta nos usos e nas tendências; Christino, o pujante Christino, talvez a vocação artistica mais exuberante de todo o grupo (segundo pensava Prieto), mas em parte inutilisado pelo excesso mesmo das suas qualidades; Victor Bastos, um tanto altivo, com o seu perfil de antigo cavalleiro das cruzadas, e a justa confiança n’um porvir de gloria;

Cinco artistas em Sintra (detalhe: Victor Bastos, Christino e José Rodrigues), João Cristino da Silva, 1855.
Imagem: MNAC

Annunciaçâo, o Virgilio bucolico da palheta portugueza, o sentimental e vibrante animalista, o profundo devaneador; Bordallo Pinheiro pae, grande talento assassinado a retalho pela burocracia, mas companheiro precioso em sociedade, desenhador, cantor, dançarino, um enthusiasta como tenho visto poucos; Colaço, já mencionado; e além de outros, certamente muito escolhidos, o nosso bom José Rodrigues, ainda quasi alegre, ainda bom commensal, ainda apaixonado por uns olhos negros ou uns olhos azues, mas em cujo sorriso vago e saudoso despontava já o melancólico dos últimos annos.

No 1.° plano, sentados: da esquerda para direita: Manuel Maria Bordallo Pinheiro, José Rodrigues com uma pequenita junto a si ; o venerando Francisco de Assis Rodrigues com as suas cans o a sua physionomia escultural; o Marquez de Sousa-Holstein, Vice-Inspector da Academia; em baixo Tomazini; um que não conheço, com um chapeo de palha; Carlos Krus; José Gregorio da Silva Barbosa.
No 2 ° plano, em pé: da esquerda para a direita: José Ferreira Chaves, Francisco Rangel de Lima com um braço encostado ao hombro do antecedente; Francisco Lourenço da Fonseca; Joaquim Nunes Prieto; Joaquim P. de Sousa; o medico cirurgião José Maria Alves Branco; Zacharias do Aça, e Camarate.

N'estas pequeninas cohortes de artistas militantes ha sempre uns adventícios, uns curiosos de Arte, annexados ao farrancho. A indole leva-os para as lidas do desenho, mas a vida afastou-os do tirocinio. Não teem o saber; teem apenas o gosto; extasiam-se com delicias perante uma paizagem, mas náo a sabem expressar [...] (1)


(1) Júlio de Castilho, José Rodrigues, pintor portuguez..., Lisboa, Livraria Moderna, 1909

domingo, 15 de outubro de 2017

Arte Namban * אמנות נאנבאן * S. Francisco Xavier e os kurofune

Segundo fontes japonesas, dois Nambanjin [Bárbaros do sul] chegaram às costas da ilha de Tanegashima, no sul do Japão, em 1543. Três anos depois, Jorge Álvares escreveu um primeiro relatório sobre o Japão, depois da chegada dos Portugueses, que contém a descrição de plantas, animais e vulcões existentes no país, assim como descrições dos Japoneses e dos seus costumes.

Nanban Six-Fold Screen Depicting the Arrival of a Portuguese Ship (kurofune).
Imagem: Christie's

Jorge Álvares encontrou Francisco Xavier em 1547 em Malaca e apresentou-lhe Anjiro (Yajiro) que tinha vindo do Japão com os Portugueses. Este encontro parece ter sido decisivo na ida de Francisco Xavier e outros missionários para o Japão (Matsuda, 1965: 4).

D. João III e o núncio apostólico da Índia, ou A partida de São Francisco Xavier em 1541, aut. desc. c. 1730.
Imagem: Wikipédia

... chegou o padre a Malaca o derradeyro dia de Mayo do mesmo anno de 49. & se deteve ahy alguns dias pelo mao aviamento que se lhe deu, mas em fim despois de passar ahy em Malaca muytos trabalhos, se embarcou em dia de São João do mesmo anno ao Sol posto em hum junco pequeno de hum Chim, que se dezia o Necodà ladrão, & ao outro dia pela menham se fez á vella, & se partio [...]

Dia de S. João a tarde, do ano de 1549 nos embarcamos em Malaca, pera virmos a estas pares, em um navio de hum mercador gentio China, o qual se offereceo ao capitão de Malaca de nos trazer a Japão. (2)

Detail of a Nanban Six-Fold Screen Depicting the Arrival of a Portuguese Ship (kurofune)
Imagem: Christie's

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Executado numa estrutura leve de engradado em madeira, coberta por sucessivas folhas de papel de forma a obter uma superficie uniforme onde o artista desenvolve o seu tema utilizando, neste caso, cores vibrantes, enquadradas por grandes superficies em ouro. Debruado a seda, é rematado por moldura lacada protegida por ferragens em cobre.

Biombo Namban, painéis  da esquerda (1593-1601).
Imagem: Museu Nacional de Arte Antiga

O reverso liso decorado com esquirolas metálicas, demonstra que se destinava a espaços de cerimonial. Este [O] par atribuido ao pintor Kano Domi, descreve visualmente da esquerda para a direita, episodios das actividades religiosas e comerciais dos portugueses no Japão.

Detalhe do templo cristão em biombo Namban (1593-1601).
Imagem: Museu Nacional de Arte Antiga

Aos pintores da escola de Kano a quem cabia retratar o quotidiano, não podia escapar o espanto e a curiosidade que causava a chegada do barco negro a Nagasaki [...] (3)

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Francisco Xavier realizou a maior parte das suas viagens por mar, onde terão ocorrido alguns dos seus mais notáveis milagres. Citando Lorenzo Ortiz na sua magnifica obra San Francisco Javier, Príncipe del Mar (1682):

"Todos los casos de su prodigiosa vida son raros, todos tiernos, todos admirables que los que le sucedieron en el mar navegando, o en bien y alivio de los que de él dependían. Fuera del mar raras son sus profecias, sus milagros, sus conversiones, su poder y los efectos de su caridad" [Lorenzo Ortiz, San Francisco Javier, Príncipe del Mar, ed. Ignacio Arellano, Pamplona, 2004].

S. Francisco Xavier no Japão Nau Santa Cruz.
Transformação da água salgada do mar em água doce (viagem de Malaca para Sancião na China, 1552).
Imagem: Museu de Marinha

O milagre da transformação da água salgada em água doce durante uma viajem por mar em 1552 é seguramente um dos milagres que mais contribuíram para a designação de Francisco Xavier, “o Milagre dos Milagres”, e sobretudo para o seu epíteto de “O Príncipe do Mar”. Este milagre que foi testemunhado por sessenta inquiridos durante os processos de 1616-1617 foi colocado no topo dos milagres incluidos na "Relatio Super Sanctitate et Miraculis Patris Franciscis Xaverii" em 1619. (4)

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Para os americanos, a expedição de [Matthew Calbraith] Perry ao Japão [1853-1854] foi apenas um pequeno passo numa expansão aparentemente invetável a oeste que, por fim, se extenderia a todo o Pacífico para abranger o exótico "Oriente". Para os japoneses, por outro lado, a intrusão dos navios de guerra de Perry foi traumática, confusa, fascinante e, finalmente, devastadora.

Durante quase um século antes de 1630, o Japão, de facto, empenhou-se a estimular as relações com os navios [kurofune] comerciais europeus e os missionários cristãos [...]

Na viagem de 1853 [310 anos depois da chegada dos portugueses], a frota de Perry consistia em duas fragatas a vapor (Mississippi e Susquehanna) e duas chalupas, com um total de 65 armas e um pouco menos de 1.000 homens.

Representação do USS Powhatan nas expedições militares e diplomáticas de Perry em 1853 e 1854.
Namban foi uma das formas de arte que floresceram no período Edo (c. 1603-1868). No caso da imagem acima, atente-se nas características pictóricas expressas na representação do navio, em meados do século XIX, comparando-as com as dos biombos do início do período. A regressão representativa extende os seus limites permitindo que a fragata a vapor seja representada com os castelos de prôa e popa, característicos da "Nau do trato" (entre outros anacromismos, persistências e derivas nativas do estilo), revelando a intemporalidade cultural do termo "kurofune".
Imagem: MIT Visualizing Cultures

Quando voltou no ano seguinte, sua armada cresceu para nove embarcações, com o novo navio comandante Powhatan juntando-se aos dois outros navios de guerra a vapor de rodas laterais. (5)


(1) Nambanjin: sobre os portugueses no Japão
(2) Afonso Rodríguez, Notas biográficas e estudo das referências documentais..., 2013
(3) MatrizNet
(4) Maria C. Osswald, S. Francisco Xavier no Oriente – aspectos de devoção e iconografia
(5) Black Ships & Samurai

Leitura relacionada:
Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto, Em que da conta de... [1583], ed. 1614
Daniela de Carvalho, Nambanjin: sobre os portugueses no Japão, 2000
12 January 1614, first edition of the book The peregrination of Fernão Mendes Pinto 31 years after his death, by friar Belchior Faria...
Les portugais au Japon